Riparofilia: Conceitos e Perspectivas Psiquiátricas

A riparofilia é classificada como uma das parafilias que foram reconhecidas dentro do campo da sexologia médico-legal. Ela se caracteriza por apresentar uma alteração específica e qualitativa nos comportamentos sexuais dos indivíduos, sendo que essa modificação se refere ao tipo de “objeto” que a pessoa escolhe utilizar para a busca e a obtenção de prazer sexual. Essa escolha por “objetos” diferentes do convencional revela uma deformação no que normalmente é considerado normativo na prática sexual. No âmbito das mudanças na conduta sexual, as parafilias são consideradas desvios de natureza sexual, diferenciando-se das alterações quantitativas, como a ausência ou o aumento excessivo do desejo sexual, e das distorções da imagem do parceiro ou do ato sexual em si.

A riparofilia, de maneira específica, é categorizada como uma forma de parafilia que está associada a determinados objetos ou situações que proporcionam prazer. Ela se encontra ao lado de outras parafilias, que incluem, entre outras, o fetichismo, a algolagnia, que é a prática envolvendo sadismo e masoquismo, a zoofilia, que se refere à atração por animais, a necrofilia, que envolve a atração por cadáveres, o exibicionismo, que é o ato de se expor sexualmente, o voyeurismo, que diz respeito a observar outras pessoas em situações íntimas sem seu consentimento, bem como a pedofilia, que é a atração sexual por crianças, a gerontofilia, que se refere à atração por pessoas idosas, etc. Essa categorização enfatiza que a sensação de prazer sexual não se origina apenas de estímulos que são considerados convencionais ou tradicionais, mas sim de situações ou condições que são incomuns e, muitas vezes, vistas como socialmente inaceitáveis ou repelentes. Isso resulta na caracterização de um desvio em relação ao que é normalmente aceito, e esse desvio pode se manifestar de uma forma que pode ou não gerar sofrimento clínico significativo ou provocar prejuízos funcionais na vida do indivíduo. A riparofilia, de maneira conceitual, é definida como uma preferência sexual marcada pela obtenção de satisfação ao estabelecer interações íntimas com indivíduos que se encontram em condições de sujeira, com odores desagradáveis e uma falta de cuidados higiênicos adequados. Essa condição pode ser intensa a ponto de proporcionar um prazer considerável para aqueles que têm relações sexuais com mulheres que se encontram em período menstrual, levando a uma experiência sexual que é vivida de forma bastante singular e particular. Essa definição, retirada da literatura de sexologia médico-legal, enfatiza a sujeira em geral, a falta de higiene e o odor corporal como fatores excitantes, distinguindo-se de parafilias relacionadas, como a coprofilia (atração por fezes) e a urofilia (atração por urina).

A origem etimológica da palavra é bastante interessante e se fundamenta na língua grega, em que o termo é composto por duas partes: a primeira, “rhyparós”, que significa sujo, imundo ou repugnante, e a segunda, “philia”, que se refere ao amor ou atração. Essa combinação de significados contribui para uma compreensão mais aprofundada da ideia de uma preferência sexual que é voltada para aquilo que, de alguma forma, provoca nojo ou repulsa em um contexto cultural específico. Essa relação entre os elementos etimológicos indica claramente uma conexão com sentimentos de aversão em relação a determinadas práticas ou mesmo fantasias sexuais. Essa parafilia, ao longo da história, tem sido frequentemente citada em diversos documentos e textos que tratam da medicina legal na região da América Latina, sendo classificada como uma das inúmeras “perversões” ou desvios no contexto da sexualidade humana. Ela integra os compêndios que trazem modificações relacionadas à conduta sexual, os quais são empregados em situações forenses com o intuito de examinar comportamentos que podem resultar em crimes contra a liberdade sexual. Além disso, essas listas também são utilizadas para a elaboração de diagnósticos periciais.

No âmbito conceitual mais abrangente, a riparofilia se integra às teorias clássicas de classificação das parafilias. Ela indica uma alteração qualitativa do objeto de prazer, de acordo com esquemas que classificam as mudanças sexuais em quantitativas (erotismo patológico, ninfomania, satiríase) e qualitativas (deformação da imagem da parceira ou do ato sexual), sendo subdivididas em modo ou objeto. Essa estrutura conceitual, frequentemente encontrada em manuais de sexologia médico-legal, possibilita a compreensão da riparofilia não apenas como uma preferência isolada, mas como um elemento de um continuum de desvios que podem coexistir com outras parafilias (por exemplo, em associação com o fetichismo transvéstico ou com o sadismo sexual). A riparofilia é um tipo de parafilia que se diferencia da salirofilia, que também é conhecida como salirophilia, principalmente pelo fato de que a primeira está relacionada ao prazer que se sente ao sujar o parceiro com substâncias consideradas repugnantes ou nojentas. Essa prática implica um contexto em que a satisfação sexual está diretamente ligada à aplicação de elementos que possam ser vistos como desagradáveis ou sujos, criando uma experiência peculiar para aqueles que a praticam. Apesar de existirem algumas similaridades, na condição conhecida como riparofilia, o relacionamento ou interação com a sujeira que já estava presente ocorre de forma passiva. Ademais, é comum que a menofilia, que se refere à atração particular por mulheres que estão menstruadas, seja incluída nesse contexto, o que acaba por aumentar tanto a natureza repulsiva quanto, ao mesmo tempo, a qualidade erótica para a pessoa que a experiencia.

A condição conhecida como riparofilia não é explicitamente citada no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, que é mais comumente chamado de DSM-5, um manual elaborado pela American Psychiatric Association, que se dedica ao uso de uma abordagem psiquiátrica. Isso significa que, sob a perspectiva da psiquiatria, essa particularidade não está catalogada entre os transtornos reconhecidos e classificados nesse importante documento. Ela pode ser listada na categoria diagnóstica conhecida como Transtorno Parafílico Especificado de Outra Forma (Other Specified Paraphilic Disorder) quando apresenta um interesse atípico que resulta em sofrimento significativo em termos clínicos, levando a um comprometimento em diversas áreas da vida do indivíduo, como as relações sociais, as atividades profissionais ou outros aspectos fundamentais de sua existência. Além disso, essa classificação é válida também quando existe um potencial risco de causar danos a outras pessoas. Para que uma condição seja considerada um transtorno em vez de apenas uma parafilia isolada, é necessário que as fantasias, os impulsos ou os comportamentos intensos persistam por um período mínimo de seis meses. Além disso, é fundamental que o indivíduo em questão tenha consciência da natureza problemática das suas ações ou que exista alguma evidência de comportamentos não consensuais associados a essa situação. Essa classificação, portanto, implica uma análise cuidadosa da duração e do reconhecimento, além de levar em conta a manifestação de atos que não respeitam o consentimento.

O DSM-5 faz uma distinção clara entre parafilia (interesse sexual atípico que não é necessariamente patológico) e transtorno parafílico (quando há sofrimento ou prejuízo), o que é essencial para a riparofilia. Muitas pessoas podem experimentar esse interesse de maneira consensual e egossintônica, sem procurar tratamento, enquanto outras apresentam comorbidades, como transtornos de ansiedade, depressão, transtornos de personalidade ou outras parafilias (necrofilia, zoofilia ou fetichismo), resultando em um quadro poli parafílico.

A etiologia psiquiátrica da riparofilia está alinhada aos modelos gerais das parafilias. A teoria do condicionamento clássico, fundamentada em Pavlov e utilizada por autores como John Money, sugere que experiências iniciais ligam estímulos considerados sujos ou repugnantes a respostas sexuais prazerosas, consolidando esse padrão por meio da repetição. Teorias psicodinâmicas, baseadas em Freud e em autores posteriores como Karpman, conectam a riparofilia a conflitos inconscientes que envolvem culpa, vergonha e a equação simbólica “sexo = sujo”. Essa equação é comumente ligada a uma educação punitiva ou a traumas infantis que relacionam a higiene à moralidade. Fatores biológicos, embora menos investigados nessa parafilia específica (devido à sua raridade), englobam possíveis mudanças neuroendócrinas ou tendências genéticas identificadas em parafilias de modo geral.

A prevalência dessa condição é geralmente classificada como baixa e é comumente subdiagnosticada, tendo como principal grupo afetado os homens, enquanto registros na literatura forense da América Latina sobre o tema são bastante escassos, sendo raramente encontrados. Apesar da ausência de informações epidemiológicas robustas, acredita-se que parafilias menos conhecidas, como a que está sendo mencionada, representem uma fração inferior a 1% do total das consultas realizadas em centros especializados em sexologia.

O diagnóstico psiquiátrico fundamenta-se em uma entrevista clínica minuciosa, em um histórico sexual abrangente e, se necessário, em uma avaliação pericial no âmbito médico-legal. Critérios diferenciais envolvem a exclusão de transtornos psicóticos (como delírios de contaminação) ou de dependência química que modifiquem a percepção de higiene.

O efeito psicológico é variável: pode levar ao isolamento social (em razão do estigma), à diminuição da autoestima ou, em situações mais sérias, a comportamentos impulsivos que representem risco criminal (como a busca compulsiva por parceiras em condições precárias sem consentimento explícito).

No contexto forense, a riparofilia, por si só, não é considerada um crime, mas pode ser significativa em análises de imputabilidade ou risco em casos de agressão sexual, estupro ou abuso desonesto, principalmente quando ligada à violência ou vulnerabilidade da vítima, de acordo com leis como a Lei de Proteção às Vítimas de Crimes contra a Liberdade Sexual.

Em relação ao tratamento, as estratégias psiquiátricas aderem a protocolos para parafilias: a terapia cognitivo-comportamental (TCC) com métodos de recondicionamento orgástico ou dessensibilização sistemática como a primeira opção, com o objetivo de substituir o estímulo considerado sujo por associações saudáveis. Farmacologicamente, alguns inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) podem ser usados para controle da impulsividade. A prevenção secundária destaca a importância da educação sexual e da detecção precoce em ambientes clínicos ou forenses.

Quando não há risco para terceiros, é fundamental distinguir entre casos egodistônicos (que causam sofrimento) e egossintônicos (aceitos pelo indivíduo), respeitando a autonomia.

De uma forma geral, a riparofilia ilustra de maneira clara a complexidade que envolve o entendimento das parafilias, as quais podem ser vistas como fenômenos que interagem nos âmbitos biológico, psicológico e social. Em termos conceituais, essa parafilia é considerada um desvio, uma vez que erotiza aquilo que é socialmente visto como repugnante. Por outro lado, sob a perspectiva psiquiátrica, a riparofilia representa um transtorno que possui um potencial lesivo e, por essa razão, demanda uma avaliação individualizada minuciosa. Essa avaliação é essencial para que se possa fazer uma distinção adequada entre um interesse que pode ser classificado como atípico e uma condição que realmente configure uma patologia. Sua investigação no campo da sexologia médico-legal ressalta a importância de se adotar métodos que sejam integrados e abrangentes, levando em consideração não apenas o aspecto da perícia, mas também os elementos humanos e terapêuticos envolvidos, promovendo assim uma melhor compreensão das questões sem a imposição de estigmas ou preconceitos desnecessários. Dessa forma, é possível criar um ambiente mais acolhedor e respeitoso, em que as pessoas possam ser compreendidas em suas particularidades sem sofrerem julgamentos inadequados.

Questões envolvendo o consentimento de pessoas em situação de rua em relação a práticas sexuais de riparofílicos: uma análise fundamentada em evidências empíricas e correlatos ontológicos.

Como foi mencionado anteriormente, a riparofilia é uma forma de parafilia que consiste na busca por prazer sexual por meio do contato com corpos que estão sujos, exalam odores desagradáveis e, em algumas situações, podem ser considerados repelentes. Dentro desse contexto específico, pessoas que se encontram em situação de rua passam a ser consideradas um público suscetível a ser alvo de interações sexuais, uma vez que suas condições de vida são extremamente desfavoráveis. Essas condições precárias se manifestam em vários aspectos, como a dificuldade de acesso a banhos regulares, a falta de roupas limpas e a inexistência de condições mínimas de saneamento básico. Essa realidade, marcada pela vulnerabilidade, contribui para que esses indivíduos sejam mais propensos a experiências de exploração e abuso. Embora uma quantidade significativa de artigos científicos não trate de maneira direta o conceito de “riparofilia”, esses estudos apresentam fundamentações consistentes que abordam as dinâmicas envolvidas na exploração sexual comercial (CSE, do inglês Commercial Sexual Exploitation), no sexo de sobrevivência, o que se refere à troca de relações sexuais em troca de necessidades básicas, como abrigo, alimentação ou dinheiro, além de examinar variantes de comportamentos sexuais que apresentam riscos elevados. Tais fatores têm um impacto considerável e negativo na habilidade das pessoas de dar um consentimento que seja verdadeiramente autêntico e livre de coações.

Essa interseção mostra que o consentimento concedido por pessoas em situação de rua a parceiros com preferências riparofílicas raramente cumpre os requisitos de voluntariedade, capacidade e informação completa, caracterizando uma forma sutil de exploração que se aproveita da fragilidade existencial e material.

Os estudos realizados demonstram que a vivência nas ruas está associada a uma série de interações sexuais que se caracterizam por serem bastante explícitas. Esse panorama inclui práticas como o stripping, que envolve a dança sensual, e o fetichismo, que diz respeito à atração por objetos ou situações específicas, além de fenômenos mais graves, como o survival sex, que se refere à troca de sexo por necessidades básicas de sobrevivência, e o tráfico de pessoas. Nestes contextos, as decisões relacionadas à sexualidade são frequentemente negociadas em circunstâncias de vulnerabilidade extrema, criando um ciclo contínuo de situações que desafiam a dignidade humana.

Fritz Fogel et al. (2016) mostram, por meio de grupos focais com jovens adultos sem-teto (18-23 anos), que o CSE é visto como um componente essencial da cultura de sobrevivência: as discussões sobre exploração sexual são constantes, e a procura por serviços (como abrigos e saúde) pode, paradoxalmente, elevar o risco de vitimização, já que expõe as pessoas a exploradores que se aproveitam da visibilidade pública.

Nesse contexto, um riparofílico que procura especificamente o “estado sujo” natural de uma pessoa em situação de rua pode oferecer recursos básicos (como comida, dinheiro ou abrigo temporário), convertendo o ato sexual em uma transação de sobrevivência. Essa situação vicia o consentimento, uma vez que a decisão não é livre, mas influenciada pela urgência da sobrevivência.

O problema se agrava ainda mais com o uso de substâncias psicoativas. Em um estudo conduzido por Santa Maria et al. (2018) com avaliação momentânea ecológica (EMA) envolvendo 66 jovens sem-teto em Houston, foi constatado que o uso de drogas no mesmo dia aumenta significativamente as probabilidades de atividade sexual (odds ratio [OR] 8.80; IC 95% 4.48-17.31). Além disso, o impulso sexual também se mostrou preditivo de interações (OR 4.23). Entre os participantes sexualmente ativos, 82% adotaram comportamentos de alto risco, incluindo trading sex (16%).

De maneira semelhante, Bailey et al. (1998) estudaram 327 jovens sem-teto em Washington, DC, e descobriram correlações relevantes entre o uso de substâncias e sexo de risco. Embora o uso de crack durante o encontro mais recente estivesse associado ao uso de preservativo em algumas situações, a dependência química em geral prejudica a capacidade cognitiva de avaliar riscos e recusar comportamentos indesejados.

Para um riparofílico, o estado alterado provocado por drogas pode permitir o acesso ao “objeto” almejado, sem que o indivíduo em situação de rua tenha a capacidade de exercer recusa informada ou revogação do consentimento.

O trauma, que pode ser entendido como uma experiência emocional ou física intensa que causa sofrimento e dificuldade, aliado a um histórico que envolve autolesão e comportamentos agressivos, destaca-se como fator significativo que compromete a capacidade de um indivíduo de agir de maneira autônoma e independente. Quando esses aspectos estão presentes na vida de alguém, eles podem restringir significativamente sua capacidade de tomar decisões e agir de maneira autônoma.

Em um estudo retrospectivo envolvendo 440 adolescentes em um abrigo na Pensilvânia, Gaudet et al. (2021) descobriram que uma história prévia de autolesão (RR 1.23), comportamento agressivo (RR 1.21) e trauma (RR 1.24) estão significativamente relacionados à atividade sexual. Além disso, o uso de substâncias continua sendo um preditor forte após o ajuste (AOR 5.18). Embora as mulheres tenham relatado um aumento no uso de contraceptivos, a vulnerabilidade geral continua.

Adedze et al. (2022), em pesquisa qualitativa com jovens sem-teto na Gana, apontaram obstáculos estruturais ao acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva (como custo e atitude hostil de provedores), o que intensifica o isolamento e a dependência de parceiros informais — incluindo aqueles com interesses fetichistas específicos pela sujeira. Nessas circunstâncias, o consentimento para práticas riparofílicas (que erotizam especificamente o odor corporal, a falta de higiene e o sangue menstrual) torna-se performativo: parece ser concedido, mas é forçado pela necessidade de sobrevivência.

A revisão de escopo de Czechowski et al. (2022) apresenta uma síntese abrangente do problema: dos 539 estudos sobre relacionamentos sexuais e românticos em pessoas sem-teto, 89% se concentram nos riscos à saúde sexual, 11% em vitimização e apenas 6% em sexo para sobrevivência. Nesse contexto, as relações consensuais autênticas são subestimadas, representando apenas 2% dos casos. Quando analisadas, evidenciam temas de afeto e apoio emocional, em contraste com relações transacionais e obstáculos institucionais. Os autores alertam que as políticas e práticas atuais podem comprometer a habilidade de criar intimidade saudável, tornando os corpos em situação de rua ainda mais objetificados.

Para o riparofílico, a “sujeira” não é apenas uma circunstância, mas o fetiche principal; proporcionar abrigo ou comida em troca de acesso a esse estado gera uma desigualdade de poder que compromete o consentimento ético e legal.

Aspectos ontológicos relacionados às questões de consentimento

Além das dimensões biopsicossociais, surgem aspectos ontológicos profundos que desafiam o “ser” da pessoa em situação de rua ao aceitar práticas riparofílicas.

Em um primeiro momento, podemos observar a ocorrência da objetificação e da abjeção ontológica, em que o indivíduo, que deveria ser tratado como um ser humano integral, é reduzido à condição de um “objeto sujo”. Esse objeto é utilizado para a satisfação de desejos parafílicos, o que evidencia um processo de desumanização. Essa desumanização é um aspecto que, conforme discutido por Czechowski e colaboradores em 2022, é definido como uma “ontologia relacional transacional”, que reflete a maneira como as relações são distorcidas em função de interesses e desejos distantes da dignidade humana.

O indivíduo que vive nas ruas, e que já lida com uma situação de vulnerabilidade existencial, caracterizada pela falta de um lar fixo e pela interrupção da sua continuidade enquanto identidade, enfrenta ainda uma forma adicional de alienação. Nessa nova realidade, seu corpo é despojado da sua autonomia, transformando-se em um mero instrumento para o prazer de outras pessoas. Essa condição compromete ainda mais sua segurança ontológica, isto é, prejudica o seu senso de continuidade do eu em um mundo que deveria ser de alguma forma confiável.

Em segundo plano, é importante destacar a vulnerabilidade existencial e a diminuição da capacidade de agir, evidenciadas pela condição da falta de moradia. A situação de estar sem um lar interrompe o conceito de “ser-no-mundo” proposto por Heidegger, resultando na transformação do consentimento em uma ilusão que se manifesta apenas de forma superficial. Santa Maria e colaboradores, em um estudo realizado em 2018, juntamente com as investigações de Bailey e outros autores em 1998, mostram de maneira clara e fundamentada como o uso de substâncias psicoativas e os impulsos relacionados à sexualidade podem prever comportamentos que emergem em situações de urgência e pressão. Ontologicamente, essa análise traz à tona a discussão sobre a diminuição da liberdade individual nas decisões que um ser humano pode tomar, levando à conclusão de que o “ser-para-si”, que representa a autonomia e a capacidade de agir segundo a própria vontade, muitas vezes se vê subjugado pelo “ser-para-outro”, que implica a necessidade de atender às demandas de outra pessoa, como, por exemplo, a satisfação de um desejo parafílico, tudo isso com o intuito de garantir a própria sobrevivência.

Fritz Fogel et al. (2016) destacam que a cultura de rua implica decisões contínuas sobre CSE, porém essas escolhas se dão em um contexto ontológico de escassez radical, e não de liberdade genuína.

Por fim, há o aspecto transacional que diz respeito à intimidade: nas relações sexuais, observa-se uma mudança significativa, onde elas deixam de ser uma expressão genuína da intersubjetividade e, em vez disso, transformam-se em instrumentos que visam à realização de um objetivo específico, que é a sobrevivência. Essa transformação é evidenciada no estudo contínuo de exploração realizado por Adedze et al. (2022) e pelos autores Gaudet et al. No que diz respeito ao conceito de riparofilia, o consentimento obtido, que pode ser considerado como “dado”, confere uma validação ontológica à parafilia em si mesma. Por outro lado, quando se analisa a condição de uma pessoa que se encontra em situação de rua, torna-se evidente que esse mesmo consentimento contribui para a intensificação da abjeção da sua própria identidade, o que, consequentemente, perpetua um ciclo vicioso de alienação em relação à sua própria existência. Essa dinâmica não apenas sublinha a complexidade dos relacionamentos interpessoais envolvidos, como também evidencia as diferentes realidades que se confrontam em torno do consentimento e da dignidade humana. Esses aspectos de natureza ontológica demandam que as intervenções realizadas transcendam simplesmente o campo da educação sexual, pois é imprescindível que também contestem as estruturas sociais vigentes que, de alguma forma, convertem a precariedade em um objeto de prazer socialmente invisível. Esse desafio, portanto, se torna essencial para promover mudanças significativas e duradouras.

Em resumo, o texto atual demonstra que, na maioria das situações, o consentimento de pessoas em situação de rua para práticas sexuais envolvendo riparofílicos é comprometido por fatores econômicos, químicos, traumáticos e institucionais. A aparente aceitação oculta a exploração estrutural. As políticas públicas precisam dar prioridade à garantia de moradia digna, ao acesso irrestrito a serviços de saúde sexual sem preconceito e a programas de redução de danos que considerem a complexidade ontológica e existencial dessa vulnerabilidade. Apenas dessa forma é possível alcançar um consentimento verdadeiramente informado e voluntário.

Referências

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Gaudet, B. A., Liu, N., Kayne, A. N., Jarvill, T. L., Zemanek, C., Downen, J. M., Cuadrado, H. M., Smith, A. B., Greenberg, M. R., Jacoby, J. L., & Quinones, J. N. (2021). Relationship between sexual activity, contraceptive utilization and biopsychosocial characteristics among homeless shelter adolescents. Cureus, 13(9), e18128. https://doi.org/10.7759/cureus.18128

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