Uma análise sintópica do estilo de apego de Kurt Wallander: mudanças ou permanência ao longo dos anos na série de Henning Mankell

Kurt Wallander, personagem principal da série de romances policiais de Henning Mankell, ambientada em Ystad, cidade localizada na Escânia, Suécia, é uma figura complexa e muitas vezes sombria. A teoria do apego adulto proporciona uma abordagem para examinar sua vida emocional e relacionamentos, possibilitando uma compreensão mais detalhada de como suas vivências afetivas afetam suas interações e comportamentos. Esta leitura sintópica analisa quatro romances — Assassinos sem rosto (1991), A leoa branca (1993), O homem que sorria (1994) e Um passo atrás (1997) — para determinar se o estilo de apego do inspetor Wallander se desenvolve ao longo do tempo ou se permanece fundamentalmente inalterado.

A investigação realizada tem suas bases firmemente estabelecidas na teoria do apego desenvolvida por John Bowlby e Mary Ainsworth. Essa teoria, que originalmente se concentrou nas relações entre crianças e seus cuidadores, foi posteriormente adaptada para compreender as dinâmicas de relacionamento no contexto da vida adulta. Autores como Hazan e Shaver, em 1987, além de Bartholomew e Horowitz, em 1991, foram fundamentais nesse processo de adaptação, trazendo uma nova perspectiva sobre como os estilos de apego influenciam as interações e vínculos afetivos entre os adultos. Conforme o guia clínico elaborado por Danquah e Berry, publicado em 2014, essa abordagem foi utilizada no campo da saúde mental voltada para a população adulta. Na fase da vida adulta, os indivíduos manifestam diferentes estilos de apego, que podem ser classificados em quatro categorias principais. A primeira delas é o apego seguro, que é caracterizado por uma autonomia saudável e liberdade nas relações interpessoais.

O segundo estilo é o ansioso, também conhecido como preocupado, que se destaca por uma constante apreensão em relação ao abandono, levando a um comportamento de busca por reafirmação. Em sequência, encontramos o estilo evitante, denominado dispensador, que tende a evitar a intimidade emocional, preferindo manter certa distância nas relações. Por fim, há o estilo temeroso, que pode ser descrito como desorganizado, uma combinação complexa que abrange tanto a ansiedade quanto a evitação, resultando em dificuldades em estabelecer vínculos saudáveis com os outros.

Wallander demonstra, de maneira marcante, traços que evidenciam um modelo de instabilidade emocional, o que torna aparente, assim, elementos da sua personalidade que podem ser categoricamente classificados como ansiosos e esquivos. Essa dualidade comportamental ressalta a complexidade de suas reações e interações. Essa dualidade que se observa em seu comportamento revela uma tendência a experimentar uma sensação de inquietação de maneira contínua, ao mesmo tempo em que busca evitar situações que possam intensificar e aumentar essa ansiedade que já sente. Esse ponto destaca a intricada forma como essa pessoa gerencia suas emoções e as diversas experiências que acontecem à sua volta.

Entretanto, existem indícios de transformações parciais em alguns aspectos das dinâmicas que envolvem os relacionamentos, especialmente no que diz respeito à sua filha, que se chama Linda. Essas transformações são claramente notáveis e têm o potencial de impactar de forma significativa as dinâmicas e interações entre os membros da família. Essas influências podem alterar comportamentos, sentimentos e até mesmo a comunicação entre pais, filhos e demais parentes, afetando a convivência e a harmonia do núcleo familiar. Ao mesmo tempo, o núcleo central da sua identidade, que manifesta características melancólicas, além de uma intensa e profunda devoção ao trabalho que realiza, continua a permanecer inalterado e intacto. Isso indica que os elementos fundamentais que compõem sua identidade continuam a ser os mesmos, o que evidencia que, mesmo diante de transformações específicas ao longo do tempo, os aspectos centrais que caracterizam a essência de quem ele realmente é ainda se encontram resguardados.

Em “Assassinos sem rosto” (Mankell, 1991), Wallander, aos 42 anos, demonstra um apego claramente inseguro, alinhado ao estilo ansioso/preocupado descrito por Danquah e Berry (2014, cap. 1, introdução de Berry et al.). Recentemente, depois de se separar de sua ex-esposa Mona, ele está em uma fase da vida em que deseja reconectar-se com ela. Entretanto, ele vive com o medo constante de ser rejeitado por sua ex-companheira. Essa dúvida o impede de tomar medidas mais decisivas para retomar o contato que tiveram anteriormente, evidenciando a complexidade dos seus sentimentos após o fim do relacionamento. Durante um jantar com sua ex-esposa, ele se entregou a emoções fortes, resultando em lágrimas como forma de expressar a profunda saudade que sentia. Ademais, não conseguia evitar o sentimento de ciúmes em relação ao novo parceiro dela, pensando sobre o que haviam vivido juntos e sofrendo ao vê-la com outra pessoa. Além disso, a relação entre o pai e sua filha Linda, que tem 19 anos, é marcada por uma grande distância e um medo constante de rejeição. Esse afastamento pode ser um sinal da dificuldade em estabelecer uma conexão mais íntima e saudável, enquanto o receio de não ser aceito pela filha é um sentimento que permeia essa relação, complicando ainda mais a compreensão e a comunicação entre ambos.

Linda tentou suicídio aos 15 anos, deixou a casa onde morava e passou a ter contato esporádico com a mãe, alternando períodos de convivência com ela. Wallander, em um momento de profunda melancolia, observa a filha rindo com o namorado queniano e interpreta o riso como prova de que “perdeu” a filha. No âmbito familiar, o pai de Wallander, que está na etapa senil da vida, empenha-se continuamente em pintar a mesma paisagem, demonstrando um ciclo repetitivo em sua arte. Ademais, suas condições de vida são muito precárias, o que gera sentimentos ambivalentes quanto ao seu cuidado. Por um lado, existe uma preocupação protetora dos filhos, demonstrada quando eles o levam ao hospital após uma tentativa de fuga noturna, evidenciando o desejo de garantir seu bem-estar. Por outro lado, essa relação é marcada por sentimentos de irritação e um esforço consciente para evitar conflitos mais graves, gerando uma dinâmica complexa e multifacetada entre afeto, raiva e frustração. Esses padrões demonstram o “medo de perda” característico do apego ansioso (Danquah & Berry, 2014, p. 171, cap. 10, Maunder & Hunter), intensificado por solidão, ingestão excessiva de álcool e dedicação obsessiva ao trabalho. O estilo revela-se temeroso-desorganizado em momentos de crise, exibindo evitação romântica (interesse efêmero pela promotora Anette Brolin) e hiperativação ansiosa nas dinâmicas familiares.

Três anos depois do acontecimento, no livro “A leoa branca”, escrito por Mankell e publicado em 1993, observa-se uma mudança inicial que sugere um crescimento na confiança na relação entre os personagens, particularmente em relação a Linda. Entretanto, vale destacar que, apesar dessa mudança visível, o comportamento predominante ainda demonstra um padrão de insegurança muito forte e presente na relação. Wallander viaja para Estocolmo com a intenção de reencontrá-la, e ao encontrá-la, ela o recebe com um abraço caloroso. Depois, eles desfrutam de um jantar juntos, momento em que conversam e fortalecem sua conexão. Ademais, ela oferece sua ajuda significativa na investigação em que Wallander está envolvido, proporcionando insights valiosos e suporte em suas tarefas. O sequestro de Linda, perpetrado por Konovalenko, provoca um aumento significativo na ansiedade dos seus pais, evidenciando toda a angústia e preocupação que esse tipo de incidente gera nos familiares. No entanto, essa experiência, embora traumática, também demonstra a confiança mútua que se forma entre Linda e seus pais. Essa ideia fica clara quando Linda, após superar uma situação desafiadora, consegue se libertar e retornar ao convívio familiar. Isso permite que ela e seus pais restabeleçam a conexão emocional anterior, além de fortalecer ainda mais os laços afetivos que os unem. Danquah e Berry (2014, p. 130, cap. 7, Levy et al.) apontam que experiências compartilhadas de trauma podem “angariar segurança” no apego, facilitando a corregulação. A relação com o pai continua tensa — Wallander fica surpreso ao saber do casamento com Gertrud —, no entanto, visitas mais frequentes e uma aceitação gradual sugerem uma redução na evitação. Mona é citada raramente, o que pode indicar um possível distanciamento evitativo. O estilo ansioso persiste (preocupação com a segurança de Linda), mas há sinais de “segurança angariada” por meio de uma comunicação mais receptiva com a filha.

A mudança na dinâmica da relação entre o protagonista e Linda torna-se progressivamente mais clara no livro “O homem que sorria”, de Henning Mankell, publicado em 1994. Ao longo da história, esse aspecto — a mudança na interação entre os personagens — ganha destaque, permitindo que os leitores vejam como seus laços se desenvolvem. Wallander, após um período de licença médica, passa por um processo de recuperação da depressão e do alcoolismo que o afetavam gravemente. Ele admite que sua filha, Linda, é a principal razão para conseguir se distanciar do uso problemático de álcool. Ela viaja da Itália com o propósito de ajudá-lo em sua recuperação. Durante esse reencontro familiar, ambos se dedicam a “lancetar abscessos” emocionais, ou seja, encaram e tratam as feridas emocionais que os afetaram ao longo dos anos, com o objetivo de fortalecer seus laços e promover a cura mútua. Ele planeja fazer chamadas regulares, apesar dos adiamentos causados pelo trabalho, e relembra momentos felizes passados com Mona e Linda bebê em Skagen. A intensidade do apego ansioso diminui, e a reciprocidade aumenta. Com o pai, atualmente casado com Gertrud, mantém-se o padrão ambivalente: visita após desavença em uma loja de bebidas, conserta o telhado após uma tempestade e joga cartas, mas ocorre uma discussão acalorada. Wallander reflete sobre a herança emocional, mesmo antes da morte do seu pai. Os romances ainda evitam compromissos (o relacionamento passageiro com Baiba Liepa termina). Nesse cenário, o apego familiar evolui para um estilo mais seguro e autônomo em relação à filha, alinhado com a ideia de Danquah e Berry (2014, p. 92) de que “colaboração e reparo” nas relações podem fomentar segurança, enquanto o evitante romântico permanece.

Por fim, em Um passo atrás (Mankell, 1997), com Wallander se aproximando dos 50 anos, a continuidade de características centrais contrasta com mudanças consolidadas. Após a morte do pai, que aconteceu há quase dois anos, Wallander vende a casa e arruma os objetos pessoais. Ele reflete de maneira nostálgica sobre as recordações da infância, como quadros e o aroma de aguarrás, evidenciando uma resolução da ambivalência e um apego “desorganizado resolvido” (Danquah & Berry, 2014, p. 119, cap. 6, Steele & Van der Hart). Com Linda, a segurança é evidente: eles passam as férias em Gotland, ela percebe seu cansaço e eles conversam abertamente sobre futuro e relacionamentos (pp. 18, 57). Ela trabalha em um restaurante em Estocolmo e liga com frequência, enquanto Wallander aceita sua independência sem mostrar sinais de pânico excessivo. Mona volta a aparecer em chamadas; Wallander sente ciúmes do novo esposo (golfista), porém concorda com a separação definitiva (pp. 302-305), indicando uma diminuição da ansiedade hiperativa. No entanto, o padrão evitante permanece o mesmo nas esferas romântica e pessoal: solidão persistente, dificuldade em formar relacionamentos íntimos duradouros (término com Baiba), dedicação obsessiva ao trabalho e deterioração da saúde (problemas cardíacos). Ele sonha com o pai e Rydberg, evidenciando um luto reflexivo, mas não resolvido (p. 32).

Mudanças parciais em meio à estabilidade estrutural

A leitura sintópica sugere alterações no padrão de apego de Wallander, especialmente no contexto familiar. O apego ansioso-preocupado em relação a Linda evolui de distanciamento (1991) para uma relação de confiança e conexão mútua (1993-1997), o que está em linha com a adaptabilidade do apego adulto frente a experiências reparadoras (Danquah & Berry, 2014, p. 130). Com o pai, a ambivalência se transforma em aceitação e nostalgia positiva após sua morte, indicando uma “segurança angariada”. Essas transformações demonstram como acontecimentos significativos — como a recuperação de uma depressão, trauma coletivo e luto — podem fomentar a integração, de acordo com Holmes (2014).

Entretanto, a caracterização de imutabilidade permanece inalterada: o núcleo que se refere ao evitamento, que inclui comportamentos como a tentativa de evitar a intimidade romântica, o isolamento social e uma dedicação excessiva e compulsiva ao trabalho, continua a existir. Esse núcleo melancólico se perpetua, de forma consistente, em harmonia com a relativa estabilidade dos estilos de apego inseguros, especialmente na ausência de uma necessária (porém não realizada) intervenção terapêutica estruturada e sistemática, como apontado pelos estudiosos Fraley e Waller no ano de 1998, conforme citado pelos autores Danquah e Berry em sua pesquisa de 2014.

Wallander não procura terapia; suas “transformações” são naturais e restritas às relações familiares, ao passo que o evitante temeroso persiste em contextos interpessoais amplos. Isso reforça a ideia de que o apego adulto é flexível, mas está ancorado em padrões precoces (Danquah & Berry, 2014, p. 249).

A presente análise sintópica revela de maneira clara como a literatura é capaz de espelhar as dinâmicas que ocorrem no âmbito clínico: a obra de Wallander traz à tona a figura do “policial melancólico”, que, devido ao seu apego instável e conturbado, entrega-se de forma intensa e completa às demandas do seu trabalho. No entanto, essa dedicação vem acompanhada de um significativo custo emocional, evidenciando os conflitos internos que esse personagem enfrenta em sua vida pessoal.

Pesquisas que venham a ser realizadas no futuro poderiam se concentrar na investigação de intervenções que sejam de caráter fictício, como, por exemplo, a terapia que é direcionada pelo foco no apego entre indivíduos. O objetivo dessas investigações seria, portanto, avaliar de maneira mais profunda e detalhada as mudanças que poderiam ser consideradas como mais significativas em resposta a tais intervenções. Em síntese, é possível afirmar que mudanças ocorrem ao longo do tempo; no entanto, a essência que permanece inalterada do indivíduo com tendências evitantes e ansiosas é o que realmente define o personagem. Essa característica transforma-o em um arquétipo significativo que proporciona uma compreensão mais profunda acerca da resiliência humana, que é, por natureza, imperfeita e cheia de nuances.

Síntese Visual da Análise Sintópica

Nesta parte do texto, foi empregado um esquema sintópico mais visual com o propósito de realizar uma comparação das quatro obras selecionadas ao longo de um período, visando a identificar tanto as continuidades como as mudanças e reconfigurações que ocorreram na estrutura de relacionamentos do personagem Kurt Wallander. Esse método permite uma análise mais aprofundada e detalhada das características e dinâmicas presentes nas obras, facilitando a compreensão das transformações que o protagonista experimenta ao longo do tempo. A análise concentra-se em diversos indicadores que estão relacionados à proximidade afetiva, à evitação de intimidade, à ambivalência nas relações e à habilidade de manter vínculos. Essa abordagem analítica permite observar se existem mudanças estruturais significativas nas relações ou se, por outro lado, as variações apresentadas ao longo da série são meramente circunstanciais, sem um impacto profundo na estrutura das interações. Dessa forma, o estudo oferece uma visão abrangente sobre a dinâmica das relações afetivas ao longo do tempo.

Figura 01 – Matriz sintópica de manutenção e modificação da estrutura vincular de Kurt Wallander

Conclusão Analítica

Foi notada uma predominância na manutenção da estrutura de vinculação que se caracteriza como insegura, especificamente do tipo evitante. Essa situação é acompanhada por algumas oscilações ocasionais nas interações e relacionamentos; no entanto, não há uma alteração significativa ou consistente que possa ser identificada como uma transição para um padrão de vinculação mais seguro. Essa ausência de mudança duradoura aponta para uma relativa estabilidade na condição de vinculação, apesar das variações que podem ocorrer de tempos em tempos e por meio de um tratamento bem feito.

Referências 

Bartholomew, K., & Horowitz, L. M. (1991). Attachment styles among young adults: A test of a four-category model. Journal of Personality and Social Psychology, 61(2), 226–244.

Danquah, A. N., & Berry, K. (Eds.). (2014). Attachment theory in adult mental health: A guide to clinical practice. Routledge.

Hazan, C., & Shaver, P. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511–524.

Holmes, J. (2014). Attachment theory in therapeutic practice. In A. N. Danquah & K. Berry (Eds.), Attachment theory in adult mental health (pp. 16–34). Routledge.

Mankell, H. (1991). Assassinos sem rosto. Companhia das Letras.

Mankell, H. (1993). A leoa branca. Companhia das Letras.

Mankell, H. (1994). O homem que sorria. Companhia das Letras.

Mankell, H. (1997). Um passo atrás. Companhia das Letras.

Wallin, D. (2014). We are the tools of our trade: The therapist’s attachment history as a source of impasse, inspiration and change. In A. N. Danquah & K. Berry (Eds.), Attachment theory in adult mental health (pp. 225–240). Routledge.

 

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