Análise sintópica da protagonista de Mau hábito

Fragmentos de um Olhar sobre o Mau Hábito

Ao iniciarmos a leitura de Mau Hábito, de Alana S. Portero, não entramos apenas em um romance: adentramos um corpo vivo, ferido e pulsante, que narra sua própria história em primeira pessoa, como alguém que luta para respirar em um mundo que se recusa a lhe oferecer ar. O livro, publicado originalmente em espanhol sob o título La Mala Costumbre (2023) e traduzido para o português por Be RGB, mantém a urgência visceral. Em resumo, é uma forma de resistência tanto linguística quanto existencial. Não se trata de uma narrativa de “formação” no sentido clássico do Bildungsroman, que costuma seguir uma trajetória linear, oferecendo uma perspectiva de integração social e um desfecho vitorioso da individualidade. Nesse contexto, a formação é vista como um vício: algo que se adquire, se repete, se contorce, se nega e, paradoxalmente, se impõe no meio da dor, da precariedade e da violência.

Alana S. Portero elabora, página por página, uma obra que mescla elementos autobiográficos e míticos. A narradora-protagonista — que tem a voz da própria autora em vários momentos — se desenvolve no bairro operário de San Blas, em Madri, durante as décadas de 1980 e 1990. O cenário não é pano de fundo: é carne. As ruas apertadas, os edifícios deteriorados, o odor de fritura e heroína, o som das sirenes, as brigas com facas, as mães cansadas e os pais ausentes ou agressivos compõem a essência da vida. Nesse universo de marginalidade intensa, a protagonista reconhece, desde tenra idade, que o corpo que lhe foi dado não corresponde ao eu que habita. O desencaixe não é uma metáfora; é algo sensorial, físico e presente no cotidiano. É o incômodo ao se olhar no espelho, o nome que não lhe pertence, a voz que não parece sua, o olhar do outro que a diminui ou a intimida.

O que torna Mau Hábito singular não é apenas o tema — a experiência trans já encontrou, nas últimas décadas, diversas vozes poderosas —, mas a forma como Portero o inscreve na literatura. Sua prosa é poética sem ser ornamental, crua sem ser sensacionalista. Existe uma musicalidade subterrânea, quase litúrgica, que evoca tanto a tradição da confissão mística quanto o realismo sujo dos subúrbios. A narradora não “explica” sua transgeneridade; ela a vivencia, a manifesta e a comemora. E, ao fazer isso, rejeita o papel de vítima exemplar ou de caso clínico.

Ela é apenas uma menina-menino-mulher que busca viver em um mundo que exige dela, a todo momento, o custo de ser autêntica.

É nesse momento que o olhar se divide, e é por isso que este texto começa como Fragmentos de um Olhar. Porque Mau Hábito não pode ser compreendido por uma leitura totalizante. O romance é composto por fragmentos: memórias afiadas, imagens que retornam como obsessão, nomes que ferem, silêncios que clamam.

A própria organização do livro, com capítulos que atuam quase como constelações de temas (como “Sobre meu nome”, que é um dos mais impactantes), convida a uma leitura não linear, mas que circula, retorna, aproxima-se e afasta-se. Ler Portero é reconhecer que a identidade não é um destino, mas um processo contínuo, sempre inacabado, sempre ameaçado e, paradoxalmente, sempre belo por sua fragilidade.

Neste ensaio que se inicia, propomos uma análise sintópica da protagonista — isto é, uma leitura que procura mapear os múltiplos eixos que constituem sua subjetividade: o corpo, o nome, a família, o bairro, a rede subterrânea de mulheres e dissidências, o desejo, a memória e a resistência. Não é uma biografia ficcional linear, mas uma perspectiva que se concentra nos momentos em que a narradora se identifica, se define e se inscreve em um mundo que, até então, só lhe proporcionava o esquecimento.

A protagonista de Mau Hábito não “descobre” que é mulher trans da mesma forma que se encontra um tesouro escondido. Ela o suporta, o transforma e o reafirma contra todas as forças que buscam silenciá-la. Desde a infância, a desarmonia entre o corpo atribuído e o eu interior se revela como uma ferida exposta. O contexto familiar e comunitário — caracterizado por códigos rígidos de masculinidade, honra popular, pobreza material e violência diária — converte esse desajuste em um risco constante. Ser diferente naquele contexto não é uma questão de “escolha pessoal”; é um risco de exclusão, agressão ou morte, seja simbólica ou literal.

Contudo, a força do romance está precisamente na recusa da narradora em ser reduzida apenas à dor. Ela procura espelhos nos quais se vê com uma fome quase desesperada. E esses espelhos não são provenientes das instituições, das publicações de moda ou dos discursos oficiais de empoderamento. Proveniente das mulheres marginalizadas do bairro: vizinhas solitárias, figuras ambíguas, mães que suportam o peso do mundo, prostitutas, travestis, lésbicas da periferia — uma linhagem informal, às vezes precária, porém resiliente, de feminilidade vivida. É nessa pedagogia subterrânea do feminino que a protagonista aprende a ocupar seu próprio corpo, a ter desejos, a sonhar e a resistir.

O nome, que é o tema principal do livro, atua como um eixo simbólico fundamental. Enquanto não é nomeada de acordo com seu verdadeiro nome, a protagonista continua parcialmente excluída do campo da linguagem e, consequentemente, da vida social. Nesse contexto, nomear-se é um ato político e existencial significativo: é reivindicar o direito de ser reconhecida, amada e lembrada. Porém, o romance nunca torna esse gesto simples. Tornar-se visível também implica em expor-se. A visibilidade é tanto uma conquista quanto um risco.

Durante a história, a protagonista desenvolve uma consciência crítica que vai além do pessoal. Sua dor transcende o sofrimento privado e se torna um elemento central na análise de uma estrutura social mais ampla — aquela que categoriza corpos como legítimos ou ilegítimos, que distribui dignidade de maneira desigual e que condena à invisibilidade ou à morte precoce aqueles que não se conformam aos padrões normativos. Essa transição da sensação difusa para a memória interpretada é um dos arcos mais impactantes do livro.

Por fim, Mau Hábito não termina com uma reconciliação fácil ou com uns “felizes para sempre”. O desfecho é mais delicado, mais vulnerável e, por isso, mais autêntico: a protagonista alcança uma forma de autoconfiança que não nega o mundo hostil ao seu redor, mas que a capacita a viver nele com maior plenitude. Ela se reconhece parte de uma genealogia maior — de mulheres reais e míticas, de Hécuba a Cassandra, de Carmilla à Chorona, de La Bikina à Rainha de Maio. “Não tinha nome, mas existia”, diz a narradora no fechamento. E é precisamente nessa persistência, mesmo diante de todas as adversidades, que se encontra a beleza angustiante do romance.

Este olhar fragmentado que se inicia agora busca seguir esse trajeto sem simplificá-lo em categorias predefinidas. Não pretendemos explicar a protagonista; desejamos compartilhar com ela os pedaços de sua vida, sua dor e sua alegria intensa. Porque Mau Hábito vai além de ser apenas o relato de uma transição de gênero: é o testemunho de uma transição para a humanidade completa em um mundo que ainda se recusa a conceder esse direito a muitos.

Além disso, é um convite para que o leitor reflita: que mau hábito estamos dispostos a deixar para finalmente nos tornarmos quem realmente somos?

A análise sintópica a seguir procura traçar, com precisão e sensibilidade, os trajetos dessa existência que se edifica no fio da navalha — entre o desajuste e a afirmação, entre o silêncio e a nomeação, entre a morte iminente e a vida que insiste em prosseguir.

Assim sendo, que a maneira como olhamos para o mundo se transforme em um ato de generosidade e de zelo, proporcionando uma percepção mais atenta e carinhosa em relação ao que nos rodeia. Que o texto se desenvolva de forma semelhante à estrutura de um livro que se lê: sem medo em relação à dor que pode vir a ser sentida, e sem qualquer tipo de constrangimento diante da beleza que pode ser percebida.

Leitura Sintópica

Em Mau Hábito, Alana S. Portero cria uma protagonista cuja jornada se assemelha menos a uma “formação” linear e mais a uma luta pela sobrevivência em meio à violência social, familiar, urbana e simbólica. Durante a trama, essa personagem passa por um processo de autoconhecimento, identificação e inserção no mundo como mulher trans. Seu desenvolvimento não se dá como uma simples descoberta interior, mas como um trajeto tenso entre a pressão normativa e o anseio por existir.

Desde o começo, a protagonista é apresentada com uma sensação de desencaixe essencial. O romance indica que ela reconhece precocemente que sua vivência não se encaixa no papel masculino que lhe foi atribuído. Esse desacordo não se manifesta como uma ideia abstrata, mas como uma vivência corporal, emocional e social. O corpo, o nome, a voz, os gestos e a maneira como é percebido pelos outros transformam-se em áreas de conflito. Desse modo, a protagonista não “escolhe” uma identidade de forma livre e tranquila; ela a reconhece em meio à luta, a partir de indícios dispersos, referências femininas periféricas e conexões de identificação que o mundo dominante busca negar.

A primeira grande dimensão da sua trajetória é, assim, a percepção da diferença. Essa consciência não traz consigo acolhimento, mas sim medo. O contexto em que vive é permeado pela marginalização, violência diária, precariedade e normas de gênero estritas. Por essa razão, a protagonista descobre cedo que ser autêntica pode ter um alto preço. Seu drama não é somente pessoal: é também histórico e coletivo. O bairro, a família e a rua atuam como elementos que definem o que é possível ou não viver, em vez de serem apenas cenários neutros.

Durante o decorrer do romance, a protagonista evolui também por meio de uma pedagogia do feminino. Ela aprende a ser mulher não a partir de uma essência, mas por meio de referências representadas por outras mulheres e figuras não conformistas. Esse ponto é fundamental: sua construção subjetiva está ligada a uma espécie de herança subterrânea, transmitida por presenças periféricas, vizinhas, mulheres solitárias, figuras ambíguas ou protetoras, e por uma comunidade inteira de feminilidade precária, porém resiliente. Em vez de ser acolhida por instituições oficiais, ela recebe reconhecimento de uma linhagem informal. Isso confere à personagem uma profundidade coletiva: ela é única, mas sua trajetória ressoa com a de muitas outras.

Essa rede de referências femininas e trans desempenha duas funções na narrativa. Primeiramente, proporciona à protagonista uma linguagem que lhe permite nomear a si mesma. Em segundo lugar, evidencia que a feminilidade, para ela, não é um conceito abstrato de beleza, mas uma maneira de existir no mundo, mesmo diante dos riscos. Nesse cenário, ser mulher também implica aprender sobre vulnerabilidades particulares: o medo de ser agredida, rejeitada, ignorada e de sofrer uma morte simbólica ou física.

Para compreender a trajetória da protagonista, é fundamental analisar sua relação com a família. A família é apresentada como um espaço ambíguo: simultaneamente origem, ferida e fonte de conflito. Nela se concentram as expectativas normativas relacionadas à masculinidade, honra, futuro e pertencimento. A protagonista enfrenta uma contradição constante: anseia por amor e validação, mas se depara com incompreensão, silêncio ou rejeição. Isso a leva a desenvolver sua subjetividade em um estado de carência emocional. Mesmo assim, a personagem não é reduzida a uma vítima passiva. Sua narrativa é poderosa ao converter a dor em percepção crítica. Ela começa a entender que a violência que a afeta não é uma falha pessoal, mas consequência de uma estrutura social que categoriza corpos como legítimos e ilegítimos.

A questão do nome é outro aspecto fundamental da sua evolução. Em Mau hábito, nomear-se vai além de simplesmente adotar uma designação: é afirmar a própria existência. Enquanto não recebe o nome que deseja, a protagonista continua parcialmente interditada no âmbito simbólico. Assim, o nome encapsula identidade, reconhecimento e dignidade. O caminho para a nomeação é também o caminho para a visibilidade. No entanto, essa visibilidade nunca é fácil, pois se tornar visível em um mundo hostil significa estar exposto. Assim, o romance evita qualquer solução simplista: ser autêntico é necessário, mas arriscado.

A protagonista amadurece ao deixar de buscar apenas a adaptação e começar a desenvolver uma consciência histórica de sua identidade. Ela compreende que sua vivência está inserida em uma narrativa mais extensa de exclusão e resistência. Isso converte sua dor em lembrança e sua lembrança em interpretação.

Nesse ponto, o romance adquire uma profundidade sintópica: a personagem deixa de ser apenas uma figura passiva diante dos acontecimentos e passa a interpretar o mundo a partir de sua posição marginalizada. Portanto, sua identidade não é mais apenas uma questão pessoal, mas também uma chave para a interpretação social e política.

No âmbito emocional, a protagonista vivencia desejo, carinho, perda, vergonha e esperança. Essas vivências não surgem como episódios secundários, mas como evidências da sua humanidade completa. O romance se recusa a aceitar o estereótipo de que pessoas trans são definidas apenas pelo sofrimento. A protagonista sente, imagina, planeja o futuro, estabelece conexões e anseia por beleza. Isso é relevante, pois sua trajetória não se limita a uma história de sofrimento; ela abrange também a imaginação de uma vida plena, a busca pela felicidade e o anseio por permanência.

Próximo ao final, a protagonista alcança um nível mais sofisticado de autoconsciência. Não se trata de uma reconciliação completa com o mundo, uma vez que a violência estrutural persiste. O que acontece é uma forma de recomposição interna. Ela começa a se conectar a uma linhagem de mulheres, tanto reais quanto simbólicas, o que lhe possibilita viver com mais plenitude. O desfecho indica mais uma conquista delicada, porém significativa, do que uma chegada estável: a personagem, enfim, se aproxima de uma existência em que pode ser identificada não como falha ou desvio, mas como sujeito.

Sintopicamente, pode-se afirmar que a protagonista atravessa quatro movimentos principais. Primeiramente, há o descompasso entre a interioridade e a norma social. Em seguida, a busca por espelhos em outras mulheres e dissidências. Posteriormente, ocorre a nomeação de si, transformando uma sensação difusa em uma identidade reconhecida. Por último, a inscrição coletiva, ao entender que sua vida faz parte de uma narrativa mais ampla de violência e resistência. Esses movimentos não seguem uma linha reta; muitas vezes se encontram, retrocedem e se intensificam. É precisamente essa variação que faz com que a personagem seja tão humana e literariamente poderosa.

Esquema diagramático

Síntese interpretativa conclusiva

A personagem principal de Mau hábito passa de uma figura silenciada a uma subjetividade que consegue nomear e interpretar a sua própria experiência. Sua jornada não é considerada heroica no sentido tradicional, pois não triunfa completamente sobre o mundo ao seu redor; no entanto, é profundamente heroica no âmbito existencial, uma vez que persiste em viver mesmo quando tudo ao seu redor tenta reduzi-la à inexistência.

O romance demonstra que o processo de se tornar si mesmo é doloroso, coletivo e político. Ao final da obra, a protagonista não se torna uma pessoa completamente pacificada, mas alguém que alcançou o que o mundo lhe negou desde o início: o direito de existir por si mesma. Nas palavras da própria autora: “não tinha nome, mas existia. Habitava minha própria lenda, não tinha nome, mas era Hécuba triunfante, Cassandra, Carmilla, Lá-Fora-Na-Cabana, a madrasta da Branca de Neve, La Bikina, a Chorona, a Dama do Lago, Afrodite, Cristina Ortiz, Roberta Marrero, sóror Juana Inés e a Rainha de Maio. Era todas as mulheres.”

 

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