Diário do Grande ABC – Danilo Baltieri: ‘É possível controlar impulsos e prevenir crimes’

Aproximadamente 50% ou menos dos abusadores sexuais de crianças apresentam Transtorno Pedofílico

25/05/2026 | 05:38
O psiquiatra Danilo Baltieri fundou, em 21 de março de 2003, o ABSex (Ambulatório de Transtornos da Sexualidade) da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), que é referência nacional no tratamento de pessoas com o Transtorno Pedofílico. O médico, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, diz que tratar possíveis agressores é fundamental para prevenir o abuso sexual infantil, tema abordado neste mês pela campanha Maio Laranja. O ABSex, que realiza aproximadamente dez atendimentos por semana, trata ainda diversas outras disfunções sexuais, transtornos e parafilias (interesse sexual atípico).

RAIO X

Nome: Danilo Baltieri
Aniversário: 16 de fevereiro
Onde nasceu: Piracicaba (SP)
Onde mora: São Paulo
Formação: Medicina
Um lugar: Roma
Time do coração: Palmeiras
Alguém que admira: Renata Almeida de Souza Aranha e Silva
Um livro: A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro
Uma música: El Trino del Diablo, por criada e tocada por Giuseppe Tartini
Um filme: O Lenhador, dirigido por Nicole Kassell, 2004

 

Como surgiu a ideia de fundar o ambulatório e quais foram os passos para efetivar sua implantação?

De 2000 a 2003, ocupei o cargo de coordenador do Serviço de Emergências Psiquiátricas no Centro Hospitalar de Santo André. Identifiquei a demanda por um local especializado no tratamento de transtornos parafílicos e agressores sexuais, um assunto que, na época, ainda era bastante estigmatizado e pouco desenvolvido na psiquiatria brasileira. Falei com a administração do Centro Universitário da FMABC e sugeri a instalação de um ambulatório de especialidade no campus. A negociação foi direta e bem-sucedida. Eles aceitaram a proposta porque reconheciam seu valor acadêmico, assistencial e educacional. O foco inicial foi o atendimento médico-psicológico a agressores sexuais e a formação de residentes e estudantes. A colaboração com a FMABC foi essencial e persiste até os dias atuais.

O ambulatório é referência no tratamento do Transtorno Pedofílico, mais conhecido como pedofilia. Como podemos defini-la?

A pedofilia é classificada como Transtorno Pedofílico, um transtorno parafílico crônico (transtorno de preferência sexual) segundo o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) -5 e CID (Classificação Internacional de Doenças) -11. Caracteriza-se por fantasias, impulsos e/ou comportamentos sexuais recorrentes e intensos envolvendo crianças pré-púberes (com 13 anos ou menos de idade). Uma importante distinção é que nem todo agressor sexual de criança tem transtorno pedofílico e nem todo portador de pedofilia comete crimes. O transtorno é uma condição psiquiátrica, o ato criminoso é questão penal.

Quais outros motivos podem levar ao abuso sexual infantil?

Aproximadamente 50% ou menos dos abusadores sexuais de crianças apresentam Transtorno Pedofílico. Outras razões incluem oportunismo (acesso à criança e inibição reduzida); anseio por poder e controle; hipersexualidade ou consumo excessivo de pornografia, o que pode levar à dessensibilização e à consolidação de padrões; características antissociais; impulsividade; antecedentes de vitimiza-ção; e consumo de substâncias. O comportamento pode ser influenciado por vários fatores. É uma combinação de vulnerabilidades pessoais e circunstâncias situacionais.

A indústria da pedofilia movimenta muito dinheiro. Há quem cometa o crime só para produzir imagens e vendê-las?

Sim. Motivos incluem poder, oportunismo, lucro financeiro (produção e comercialização de material de abuso sexual infantil), vingança ou até mesmo transtornos de personalidade sem interesse sexual primário em crianças. A indústria da pedofilia gera grandes quantias e atrai indivíduos motivados pelo lucro, mesmo que não tenham parafilia.

Pessoas com Transtorno Pedofílico procuram voluntariamente o ABSex?

O ABSex atende pessoas com Transtorno Pedofílico que procuram ajuda voluntariamente para manejo dos impulsos, prevenção de reincidência e melhoria da qualidade de vida. Não atendemos majoritariamente vítimas. O foco do ambulatório, desde sua criação, é o tratamento dos agressores sexuais, portadores ou não de parafilias. Muitos pacientes chegam por conta própria, impulsionados pelo sofrimento interno, temor de agir ou após interação com o sistema de justiça. O estigma é grande, porém o serviço existe precisamente para proporcionar atendimento especializado e humanizado a quem procura ajuda.

Como é feito o tratamento?

Realizamos avaliação diagnóstica cuidadosa, tratamento farmacológico, quando indicado e sempre com consentimento e monitoramento, além de psicoterapia individual e de grupo. A abordagem é médico-psicológica, ética e baseada em evidências, visando à redução de risco de reincidência e reinserção social. Adotamos uma estratégia combinada de psicoterapia cognitivo-comportamental e farmacoterapia, com acompanhamento de profissionais de diversas áreas (psiquiatra, psicólogo, assistente social) e, se necessário, comunicação com a Justiça, família e rede de apoio. A psicoterapia tem ênfase no controle de impulsos, reestruturação cognitiva, desenvolvimento de empatia pela vítima e prevenção de recaídas. Já a farmacoterapia é feita com inibidores seletivos da recaptação de serotonina para redução de compulsividade; estabilizadores do humor; medicações ansiolíticas, dentre várias outras.

É possível que uma pessoa com transtorno pedofílico controle seus impulsos e não realize o ato criminal? 

Há tratamento eficaz, não apenas controle. O objetivo é minimizar o sofrimento, gerenciar impulsos e evitar comportamentos arriscados. Ou seja, é possível controlar os impulsos e prevenir crimes. O tratamento reduz significativamente o risco de reofensa. A literatura internacional mostra redução de 15% a 30% ou mais com abordagem combinada. Os cuidados incluem avaliação minuciosa, que inclui escalas específicas para quantificar interesses pedofílicos e acompanhamento constante, por meio de exames, adesão, suporte social. A abordagem é ética e voluntária. Há uma distinção nítida entre fantasia e ação.

Então, para combater o abuso sexual infantil, tema bastante abordado neste mês na campanha Maio Laranja, um dos caminhos é tratar pessoas com Transtorno Pedofílico? 

Sim, é fundamental tratar possíveis agressores para prevenir. Após tratamento, muitos indivíduos com transtorno pedofílico são capazes de sentir remorso e compreensão do mal que causam e da cadeia de eventos que levou ao comportamento danoso. Outros, em princípio, subestimam o prejuízo, alegando que a criança não reagiu, porém, podem ser sensibilizados por meio da psicoeducação e terapia.

Qual a porcentagem de pedófilos que praticam crime?

Muitas pessoas com transtorno pedofílico nunca praticam crimes – as estimativas variam, mas pesquisas indicam que uma parte significativa, possivelmente um terço, não agride crianças. O consumo de imagens, material de abuso sexual infantil, representa um risco significativo, porém, o tratamento se concentra em minimizar

No caso de agressores sexuais, eles procuram tratamento por vontade própria ou são encaminhados pelo sistema judiciário? 

Alguns pacientes são encaminhados pelo sistema de justiça, embora não tenhamos quaisquer parcerias com o judiciário, mas também chegam espontaneamente ou por indicação de outros profissionais. No ABSex atendemos apenas pacientes voluntários.

A maioria que procura são homens ou tem um número considerável de mulheres?

Homens representam a maioria dos pacientes que buscam atendimento espontaneamente ou são encaminhados. Mulheres com parafilias são muito menos frequentes, porém não são inexistentes. Há estimativa de menos de 5% a 10% dos casos.

Qual a causa da pedofilia? É um transtorno que já nasce com a pessoa ou pode ser desenvolvido?

A pedofilia possui um significativo aspecto neurodesenvolvimental. Pesquisas indicam mudanças no sistema androgênico pré-natal, fatores perinatais, epigenéticos e possivelmente genéticos (mesmo que polimorfismos específicos de dopamina e serotonina não tenham apresentado diferenças em alguns estudos). Não se trata de uma “escolha” nem de algo que surge a partir de um trauma isolado na vida adulta. Parece apresentar-se precocemente e manter-se estável ao longo da vida. A expressão pode ser influenciada por fatores ambientais (como oportunidades e uso de substâncias), porém a origem é biológica. Droga induz o comportamento quando a pessoa já tem um transtorno

Há uma relação dos impulsos sexuais com o uso de substâncias químicas? 

Existe uma conexão evidente, porém não uma de causalidade simples. Substâncias como álcool, cocaína, crack, entre outras, tendem a diminuir as inibições, elevar a impulsividade e potencializar comportamentos sexuais arriscados, principalmente em indivíduos que já possuem predisposição, como aqueles com transtorno parafílico, hipersexualidade ou características antissociais. Não é a droga que origina a pedofilia ou outra parafilia, mas ela pode desinibir uma pessoa que já possui o transtorno, tornando mais fácil a transição do impulso para o ato. Pesquisas indicam que muitos agressores sexuais utilizam substâncias durante a prática do crime. Neste contexto, o tratamento deve abordar simultaneamente o transtorno sexual e o uso de substâncias.

Qual a importância da educação sexual de crianças e adolescentes, além da orientação a pais e educadores?

A prevenção depende fundamentalmente da educação sexual. Ela ensina sobre limites corporais, consentimento, identificação de situações de risco e como solicitar ajuda – um aspecto especialmente relevante, pois a maior parte dos abusos acontece em casa ou por pessoas conhecidas. É necessário capacitar educadores e pais.

Existe um preconceito por parte da população de que a educação sexual se trata de ensinar sexo para a criança. O que diria sobre a questão?

A noção prejudicial de que “está ensinando sexo para criança” é infundada. Uma educação sexual de qualidade aborda proteção, respeito e autonomia, em vez de práticas sexuais. Nações que oferecem uma educação sexual de qualidade apresentam taxas mais baixas de abuso. É necessário esclarecer o assunto com informações científicas e éticas.

Publicação Original

 

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