Prática condenável de alcance global vira caso de polícia e já mobiliza as autoridades

VÍTIMAS - Gatos estão entre as espécies que sofrem nas mãos da máfia do “animal crush”: crueldade que dá lucro e likes
- A empresária paulistana Daiana Schuinsekel de Almeida foi presa por produzir e vender vídeos de “animal crush”, fetiche cruel de esmagamento de filhotes. A barbárie encontrou nas redes sociais um negócio global, com o Brasil virando fornecedor. A polícia e organizações internacionais intensificam o combate, revelando um preocupante cenário de violência.
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Veiculado nas redes sociais, um vídeo extremamente chocante, com cenas de violência explícita, virou caso de polícia. Nele, a empresária paulistana Daiana Schuinsekel de Almeida aparecia usando roupas provocativas enquanto esmagava, com a sola de uma sandália plataforma, filhotes de animais indefesos. O vídeo fazia parte de uma série em que a matança se repetia com coelhos, gatos e até pintinhos. As imagens dessa macabra — e revoltante — transmissão ao vivo eram vendidas para grupos fechados europeus ligados ao chamado “animal crush” — termo em inglês usado para designar uma prática hedionda, o fetiche por esmagamento de animais. Após uma denúncia apresentada por uma ONG da Bulgária, Daiana foi presa pela polícia em São Paulo em maio.
A crueldade contra animais sempre existiu e é crime, mas encontrou nas redes sociais um ambiente fértil para transformar a barbárie em negócio. Vídeos de tortura passaram a ser produzidos sob encomenda, vendidos em grupos fechados e compartilhados infinitamente. O problema é global e por aqui já vem chamando a atenção da polícia, de organizações internacionais e do Congresso Nacional. Segundo dados do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo, só no primeiro trimestre deste ano o número de ocorrências envolvendo vídeos de tortura animal superou o registrado em todo o ano de 2025. Mais de 1 000 animais vítimas de violência para gravações na internet foram resgatados.
Embora esteja sediado na capital paulista, o Noad monitora casos em todo o país. O núcleo identificou vídeos mostrando o abate cruel de aves por meio de torções de pescoço e pisoteamento no Rio Grande do Norte. A investigação conduzida pela Polícia Civil da região e pelo Ministério Público levou, em junho, à prisão de uma mulher de 44 anos suspeita de cometer maus-tratos contra animais, gravar as cenas e comercializar o conteúdo pela internet. Segundo o Ministério Público, as imagens revelavam que as vítimas “continuavam se debatendo”, evidenciando sofrimento intenso.
O Brasil virou um fornecedor barato para grandes redes de zoossadismo — mas não está sozinho nessa triste seara. Há três anos, o FBI e o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos investigaram uma comunidade internacional dedicada à encomenda e ao compartilhamento de vídeos de tortura de macacos da Indonésia. Havia consumidores em diversos países pagando para assistir e solicitando formas específicas de violência contra animais. A investigação resultou em prisões até no Brasil.
A disseminação desse tipo de crime levou à criação de uma entidade mundial, a Social Media Animal Cruelty Coalition (SMACC), que reúne organizações de diversos países para monitorar a crueldade contra animais nas redes. Em 2021, identificou conteúdos violentos que, juntos, acumulavam mais de 5,3 bilhões de visualizações. Desde então, monitora esse material, denuncia conteúdos às plataformas e pressiona por regras mais rígidas.
A crueldade intencional contra animais é um crime com punição de dois a cinco anos de cadeia no Brasil. Para além disso, ações deliberadas que provocam sofrimento aos bichos são sintomas sociais preocupantes. “Isso não apenas viola normas éticas e legais: pode indicar problemas psicológicos ou um fator de risco para outras formas de violência”, diz Danilo Baltieri, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Estudos associam maus-tratos a animais aos comportamentos violentos dirigidos contra pessoas, sugerindo que a identificação precoce desses casos pode ser importante no tratamento de indivíduos com elevado potencial de violência. Os espectadores típicos dos vídeos são jovens do sexo masculino, mas os investigadores notam cada vez mais meninas e até crianças entre seus consumidores.
A internet não criou a crueldade, mas fornece infraestrutura capaz de recompensá-la com audiência. O Discord, rede em que os vídeos circulam de modo mais despudorado, afirma investir em “políticas rigorosas” sobre o abuso de animais. Mesmo assim, está na mira da polícia em vários países. O YouTube proíbe a publicação de maus-tratos e de “resgates falsos” (cenas em que animais são postos em perigo propositalmente para depois serem “salvos”). Mas ainda há muito conteúdo assim na plataforma. O Facebook também não está livre disso, embora sua dona, a Meta, tenha políticas contra a crueldade animal. Enquanto cresce a pressão por leis mais severas contra tais conteúdos, há uma migração deles para servidores privados, canais criptografados e fóruns fechados, de fiscalização mais difícil. Quanto mais fofo o bicho, maior parece ser o compartilhamento desses vídeos. E, quando isso acontece, o risco é validar o horror.
Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002
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Médico psiquiatra. Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Foi Professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC durante 26 anos. Coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria da FMABC por 20 anos, Pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP) durante 18 anos e Coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC (ABSex) durante 22 anos. Tem correntemente experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas e Transtornos da Sexualidade, atuando principalmente nos seguintes temas: Tratamento Farmacológico das Dependências Químicas, Alcoolismo, Clínica Forense e Transtornos da Sexualidade.

