O que aconteceu
Negociação é rápida e discreta. Pessoas abordadas contaram ao UOL que os encontros costumam ocorrer durante a madrugada e nos fins de semana. Segundo os relatos, os homens que procuram esse tipo de abordagem têm mais de 50 anos e, aparentemente, bom poder aquisitivo.
Valores variam entre R$ 10 e R$ 50. Há também quem ofereça pedras de crack como pagamento, tendo o sexo como compensação. Os encontros podem ocorrer em locais públicos ou em motéis.
Quem é mais abordado pelos “caçadores de sexo”. Sabrine Pedrosa Vieira, 35, mulher transexual que vive em situação de rua há alguns meses na região central, detalha como acontecem as abordagens e afirma que, na maioria dos casos, são homens mais velhos em busca de homens mais jovens.
Os homens chegam, abordam e perguntam: ‘você usa droga? você bebe? você é morador de rua (sic)? Estou interessado em fazer alguma coisinha. Tenho R$ 10 aqui’. O sexo é feito na rua, no motel ou aqui mesmo no banheiro do terminal [de ônibus Amaral Gurgel]. Classifico essa situação como uma ‘imundície’, porque olha pra mim, olha o meu estado. E uma pessoa sentir fetiche, prazer por uma pessoa que já está em estado vulnerável? E, sabendo que, muitas vezes, a pessoa precisa daquele dinheiro para comprar alguma coisa? Ela se aproveita disso, e a gente precisa se submeter. Sabrine, pessoa em situação de rua, em relato ao UOL
Outros depoimentos reforçam esse sentimento. “A gente também corre muito risco. A gente até pensa nisso, mas também pensa no dinheiro. Somos vulneráveis, não temos nada. Isso é constrangedor. Eles veem que somos vulneráveis, então se torna mais fácil [para eles]”, disse Sephora Ferreira, 36.
Moro há mais de 10 anos nas ruas. Isso acontece com frequência. Eles abordam, perguntam se estou a fim, mas sempre digo que não curto essas paradas. Homem em situação de rua que pediu para não ser identificado
Das ruas para a internet
Criadores de conteúdo já perceberam que há público. A reportagem identificou pelo menos três perfis no X (antigo Twitter) que publicam vídeos de “caçadores” fazendo sexo explícito com outros indivíduos supostamente em situação de rua. As gravações ocorreram em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza.
Excitação por pessoas consideradas “sujas”. Criadores abordam homens na rua com perguntas como “tem queijinho aí?” —gíria para esmegma, acúmulo no pênis ligado ao mau cheiro e à falta de higiene. Depois, há negociação e o sexo ocorre na rua, em barracas improvisadas, sob viadutos, em matagais ou em residências, com ou sem camisinha.
Legendas em publicações instigam imaginação do público. “Às vezes, tudo o que os homens querem é um lanche, cama confortável e uma aliviada”, diz uma publicação. “Fui caçar aqui no centro do Rio. Mesmo chovendo já catei cinco [pessoas em situação] de rua só hoje. Esses dois estavam ‘queimando um chá’ na esquina com um monte de sacos de latinhas”, afirma outra. Em outro caso, a legenda diz: “20 conto faz (sic) milagre”.
Criadores também lucram com conteúdo. A reportagem do UOL entrou em contato com um dos perfis, que tem mais de 15 mil seguidores e vende vídeos em plataforma de conteúdo adulto por US$ 6,99 (cerca de R$ 36,95). Ele se recusou a comentar como funciona o negócio: “Amigo, não estou a fim de ficar respondendo perguntas. Muito obrigado”.
População de rua cresce no Brasil. Segundo o CadÚnico, em março o país registrava 367.020 pessoas nas ruas — o número apurado é 16 vezes superior ao registrado em 2013, segundo a Agência Brasil. Na cidade de São Paulo, a estimativa é de 101 mil pessoas, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Profissional explica perfil de praticantes
Relatos não são raros, diz especialista. Ao UOL, o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do ABSex (Ambulatório de Transtornos da Sexualidade) do Centro Universitário FMABC, afirma que a prática é conhecida como riparofilia —excitação sexual associada à sujeira. Trata-se de uma parafilia, ou interesse sexual atípico.
Não é incomum ouvir, na prática clínica, fantasias sexuais de homens entre 40 e 50 anos desejando ter intercurso sexual com pessoas em situação de rua. Principalmente homem, mas também [ocorre] com mulheres. Agora, uma coisa é a fantasia; outra é a prática. Danilo Baltieri, psiquiatra
Risco e situação “fora do padrão”. Segundo Baltieri, algumas pessoas têm fantasias sexuais intensas e combinadas (risco, degradação, dominação, impessoalidade) e, em certos casos —especialmente com comportamento sexual compulsivo— elas podem buscar viver essas experiências na prática.
Baixa autoestima é fator recorrente. “Um denominador comum que eu vejo nessas pessoas é a autoestima rasgada [abalada]. Por motivação de físico, de beleza, de dinheiro? Não. Eles são bem de vida, bem estruturados”, disse o pesquisador.
Riparofilia também pode ser chamada de “Pig” (porco, em inglês). Esse é o nome popular dado por usuários e praticantes em redes sociais e aplicativos de pegação.
‘Fiquei com medo e procurei ajuda’, diz praticante
Homem teve primeira experiência aos 22 anos. J.C., hoje com 49 anos, morador de São Paulo, contou ao UOL que começou a sair com garotos de programa após traição em um relacionamento. A reportagem não irá identificá-lo a pedido do próprio entrevistado.
Numa madrugada, estava voltando de um lugar assim, e um morador de rua me pediu cigarro. Conversei com ele e fiquei muito excitado. Dei R$ 20 para ele. Fiz sexo oral e gostei. Ele estava sujo, com cheiro de urina e bem suado. J.C., em relato ao UOL
Praticante disse que sentiu medo após tentar novas experiências e ser agredido. Foi aí que buscou ajuda profissional. Hoje, ele faz parte daquilo que é chamado de “riparofilia roleplay”, ou seja, quando os envolvidos criam papéis ou situações fictícias.
Apanhei de três moradores de rua. Eles me bateram bastante. Fiquei com medo e procurei ajuda. Hoje faço acompanhamento médico e com psicóloga. Eu namoro, e meu parceiro até aceita fingir que é um mendigo (sic) durante o sexo. Se pudesse, e se dependesse de mim, só faria sexo assim, mas tento me controlar. J.C.
O que diz a lei
Prostituição, por si só, não é crime no Brasil. Especialistas ouvidos pelo UOL explicam que o enquadramento legal depende de cada caso e pode envolver diferentes tipos penais, conforme as circunstâncias. Entre eles:
- favorecimento da prostituição: pena de reclusão 2 a 5 anos e multa;
- rufianismo (exploração da prostituição de outra pessoa): pena de reclusão de 1 a 4 anos e multa;
- estupro de vulnerável: pena de reclusão de 10 a 18 anos –podendo chegar entre 12 e 24 anos em caso de lesão grave e de 20 a 40 anos se houver morte.
Cada um desses crimes se aplica a situações específicas e com diferentes níveis de gravidade. “O estupro de vulnerável [por exemplo] vai ter como foco a invalidade do consentimento. A miséria extrema, a depender do caso, poderá tornar esse consentimento inválido”, afirma a advogada criminalista Daniela Portugal, professora de direito penal da UFBA (Universidade Federal da Bahia).
Acredito que a miséria extrema pode, sim, caracterizar vulnerabilidade em determinados casos —especialmente quando se comprova a impossibilidade de resistência ao ato. Mas isso não é presumido. Maíra Beauchamp Salomi, advogada criminalista e mestre em direito penal pela USP
Outros possíveis crimes também podem ser considerados. Entre eles estão o registro não autorizado de intimidade sexual e a violação sexual mediante fraude. Além disso, a prática de ato sexual em local público pode configurar o crime de ato obsceno, previsto no artigo 233 do Código Penal.
O que dizem as plataformas
OnlyFans diz exigir verificação de identidade e consentimento de todos que aparecem nos vídeos: “Exigimos que todos os terceiros que aparecem em conteúdo explícito passem por nosso processo de verificação de idade e identidade e forneçam consentimento documentado antes de aparecerem na plataforma. Medidas são tomadas contra quaisquer violações desta política, de acordo com nossos Termos de Serviço”. Após o contato do UOL, o perfil foi retirado do ar pela plataforma. O X não retornou o contato da reportagem.
Autoridades desconhecem assunto
O UOL procurou órgãos públicos para falar sobre o que vem acontecendo nas ruas e na internet. O Ministério Público de São Paulo disse que, até agora, não recebeu nenhum relato nesse sentido, “nem mesmo por meio das escutas sociais feitas pela Defensoria Pública”.
Polícia Civil encaminhou informações às unidades do centro da capital. “Assim que tomou conhecimento dos fatos, a Polícia Civil encaminhou as informações às unidades policiais da região central da capital para a realização de diligências com o objetivo de apurar os fatos e, se confirmados, identificar e responsabilizar os autores.”
Prefeitura de São Paulo explica atuação. A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social afirmou que a pasta realiza trabalho por meio de acolhida, acompanhamento e encaminhamentos para a rede de proteção e que não possui caráter investigativo, fiscalizatório ou repressivo.
Quando há indícios ou relatos de possíveis violações de direitos, as equipes [fazem o] encaminhamento aos órgãos do sistema de justiça e segurança pública. Secretaria, em nota
Sem relatos até agora. A secretaria concluiu dizendo que a GCM não recebeu chamados relacionados ao tema nem no ano de 2025 nem em 2026.
Concessionária de terminal de ônibus diz não ter recebido denúncias. A SP Terminais Noroeste, responsável pela gestão do Terminal Amaral Gurgel, diz não ter recebido denúncias sobre sexo no banheiro do local. “A concessionária reafirma seu compromisso com a segurança, o bem-estar e a integridade dos usuários, colaboradores e demais frequentadores.”
Atendimento – Consultório
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Médico psiquiatra. Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Foi Professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC durante 26 anos. Coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria da FMABC por 20 anos, Pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP) durante 18 anos e Coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC (ABSex) durante 22 anos. Tem correntemente experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas e Transtornos da Sexualidade, atuando principalmente nos seguintes temas: Tratamento Farmacológico das Dependências Químicas, Alcoolismo, Clínica Forense e Transtornos da Sexualidade.

