A matrolagnia não tem sido extensivamente estudada como uma parafilia, e isso dificulta o seu manejo clínico.
A matrolagnia, também conhecida pela grafia alternativa matrilagnia, é um termo utilizado para descrever a atração ou fantasia sexual do filho direcionada de maneira específica à própria mãe. Essa condição caracteriza-se como um interesse de natureza parafílica, ou seja, envolve desejos ou comportamentos sexuais considerados atípicos ou fora das normas culturais estabelecidas. A matrolagnia é um fenômeno incomum e muito pouco documentado na literatura científica, o que contribui para o seu caráter obscuro e pouco compreendido.
É fundamental destacar que a matrolagnia apresenta uma diferença marcante em relação à matronolagnia, embora ambas estejam relacionadas a formas de atração sexual direcionadas a mulheres mais velhas. A matronolagnia refere-se a um desejo sexual voltado para mulheres maduras de maneira geral, sem que haja, necessariamente, qualquer tipo de laço sanguíneo, vínculo familiar ou relação de parentesco entre o indivíduo e a pessoa objeto de sua atração. Nesse contexto, a matronolagnia pode abranger o interesse por figuras femininas mais velhas que ocupam diferentes papéis sociais, como, por exemplo, professoras, chefes no ambiente de trabalho, vizinhas, conhecidas ou até mesmo celebridades de idade avançada, independentemente de qualquer ligação pessoal ou afetiva pré-existente.
Por outro lado, a matrolagnia é caracterizada por sua especificidade e restrição quanto ao objeto de desejo, pois está diretamente relacionada à figura materna biológica. Ou seja, trata-se de uma atração sexual que tem como foco exclusivo a própria mãe do indivíduo, diferenciando-se, assim, de outras formas de interesse por mulheres maduras. Essa distinção é essencial para a compreensão dos dois conceitos, já que, enquanto a matronolagnia envolve uma amplitude maior de possibilidades e não pressupõe um vínculo familiar, a matrolagnia se destaca justamente pela particularidade de envolver sentimentos direcionados à mãe biológica, tornando-se, portanto, um fenômeno mais específico e delimitado dentro do espectro das parafilias.
Além disso, a matrolagnia pode se manifestar de diferentes formas, variando desde pensamentos ou fantasias recorrentes até comportamentos mais explícitos. No entanto, devido ao forte tabu social e às implicações éticas e legais, a maioria dos casos permanece restrita ao âmbito privado, sendo raramente relatada ou discutida abertamente.
O estudo desse tipo de parafilia apresenta diversos desafios, sendo dificultado não apenas pela escassez de relatos disponíveis na literatura científica e em registros clínicos, mas também pelo forte estigma social que envolve o tema. Esse estigma faz com que muitas pessoas afetadas evitem buscar ajuda profissional ou mesmo relatar suas experiências, contribuindo para a limitação do conhecimento acerca das causas, da prevalência e das possíveis abordagens terapêuticas para essa condição. Além disso, devido à sua baixa prevalência na população geral e à falta de pesquisas empíricas específicas e aprofundadas, os profissionais de saúde mental frequentemente enfrentam obstáculos significativos ao tentar formular diagnósticos precisos. Essa carência de informações confiáveis dificulta o planejamento de intervenções adequadas e a avaliação dos riscos associados, tornando o manejo clínico desses casos menos fundamentado em evidências científicas sólidas. Como resultado, há uma necessidade crescente de mais estudos e de maior conscientização sobre o tema, para que se possam desenvolver estratégias de diagnóstico, tratamento e prevenção mais eficazes e baseadas em dados concretos.
Para auxiliar na compreensão dessa condição complexa e multifatorial, nós desenvolvemos um modelo conceitual didático (ver imagem abaixo), elaborado com base em Aggrawal (2009, cap. 1 e Apêndice 1) e na distinção contemporânea entre interesse parafílico e transtorno parafílico. O modelo organiza os elementos em camadas inter-relacionadas, permitindo uma visão integrada dos fatores hipotéticos, mecanismos de mediação e possíveis desfechos.
Moderadores de Risco e Proteção
No topo do modelo localizam-se os moderadores de risco e proteção, que desempenham um papel fundamental ao atuarem como verdadeiros filtros, exercendo influência sobre todas as etapas do processo analisado. Esses moderadores podem tanto aumentar quanto diminuir a probabilidade de ocorrência de determinados eventos, dependendo da sua natureza e intensidade. Entre os principais fatores de risco identificados no contexto estudado, destacam-se diversos elementos que merecem atenção especial. A proximidade física e a oportunidade referem-se à facilidade de acesso entre indivíduos e situações de risco, facilitando a ocorrência de comportamentos indesejados. Limites familiares ambíguos dizem respeito à falta de clareza nas regras e papéis dentro do ambiente familiar, o que pode gerar confusão e insegurança entre os membros da família. O conflito intrafamiliar, por sua vez, envolve desentendimentos frequentes e relações problemáticas entre familiares, criando um ambiente propício ao desenvolvimento de problemas emocionais e comportamentais. O isolamento social é caracterizado pela ausência ou escassez de contatos sociais significativos, o que pode levar à solidão e ao agravamento de vulnerabilidades individuais. O estresse crônico refere-se à exposição prolongada a situações estressantes, que pode comprometer a saúde mental e física dos envolvidos. O uso de substâncias psicoativas, como álcool e outras drogas, representa outro fator de risco importante, pois pode desencadear ou agravar diversos problemas de saúde e comportamento. Por fim, a presença de comorbidades psiquiátricas, ou seja, a coexistência de mais de um transtorno mental em um mesmo indivíduo, aumenta significativamente a complexidade do quadro e a necessidade de intervenções especializadas.
Já os fatores de proteção incluem: estabelecimento de fronteiras claras, promoção de autonomia individual, rede social de apoio, capacidade de reflexão sobre os próprios impulsos, intervenção precoce e supervisão adequada quando necessário. Esses moderadores determinam se predisposições internas evoluirão para expressões mais problemáticas ou permanecerão contidas.
Fatores Predisponentes
A caixa azul à esquerda reúne os fatores predisponentes, que representam vulnerabilidades de base e funcionam como elementos que aumentam a suscetibilidade ao desenvolvimento de interesses parafílicos. Entre esses fatores, destacam-se diversas categorias importantes.
Primeiramente, encontram-se as vulnerabilidades individuais, que englobam características pessoais como impulsividade, ou seja, e, grosso modo, a tendência de agir sem pensar nas consequências; compulsividade, que se refere à repetição de determinados comportamentos de forma excessiva e sem controle; além de dificuldades na regulação afetiva, o que implica uma limitação na capacidade de lidar adequadamente com emoções intensas ou conflitantes.
Outro grupo de fatores diz respeito aos padrões de desenvolvimento e apego. Dentro desse contexto, podem-se observar situações de dependência excessiva em relação a figuras parentais ou cuidadores, o que dificulta o desenvolvimento da autonomia. Além disso, a individuação incompleta, que é a incapacidade de estabelecer uma identidade própria separada dos outros, e as fronteiras familiares difusas, em que os limites entre membros da família não são claros, também contribuem para a formação dessas vulnerabilidades.
A aprendizagem sexual precoce constitui outro fator relevante. Nesses casos, ocorre uma associação entre sinais maternos e excitação sexual, o que pode levar à formação de fantasias inadequadas desde a infância. Esse processo pode ser influenciado por situações em que a criança é exposta a comportamentos ou estímulos sexuais antes do tempo apropriado, distorcendo o desenvolvimento saudável da sexualidade.
Além disso, experiências adversas na infância desempenham um papel significativo. Entre elas, destacam-se a sexualização precoce, que pode ocorrer por meio de exposição a conteúdos ou situações inadequadas para a idade; traumas, como abusos físicos, emocionais ou sexuais; e a transgressão de limites, em que a criança não tem seus espaços e direitos respeitados, o que pode comprometer sua percepção de segurança e confiança.
Por fim, há as hipóteses psicodinâmicas históricas, como o conflito edípico não elaborado, que sugerem que questões não resolvidas durante fases importantes do desenvolvimento psicossexual podem influenciar o surgimento de interesses parafílicos. No entanto, é importante ressaltar que essas hipóteses, apesar de terem sido amplamente discutidas na literatura psicanalítica, não são confirmadas por evidências robustas na atualidade.
Todos esses fatores, quando presentes, criam um terreno fértil para o surgimento do interesse parafílico. Contudo, é fundamental compreender que eles não determinam, por si só, o desfecho desse processo, funcionando apenas como elementos de predisposição e não como causas determinantes.
Mediadores
No centro do esquema, a caixa roxa representa os mediadores, que são processos psicológicos fundamentais responsáveis por conectar os fatores predisponentes à manifestação do comportamento. Esses mediadores atuam como pontes entre as predisposições iniciais e a expressão comportamental, desempenhando papéis específicos e complexos em todo o processo.
O primeiro mediador é a representação da figura materna como objeto sexualizado. Esse processo envolve a construção, no imaginário do indivíduo, de uma imagem da mãe que transcende o papel tradicional materno, atribuindo-lhe características e significados de natureza sexual. Essa representação pode ser resultado de experiências precoces, influências ambientais ou distorções cognitivas, levando à erotização da figura materna.
O segundo mediador refere-se à fusão entre apego, cuidado, intimidade e excitação sexual. Nesse caso, as fronteiras entre sentimentos de proximidade emocional, necessidade de proteção, demonstrações de afeto e desejo sexual tornam-se confusas e entrelaçadas. O indivíduo pode passar a associar sensações de conforto, segurança e carinho, normalmente ligadas ao vínculo materno, à excitação sexual, dificultando a diferenciação entre os distintos tipos de relacionamento.
O terceiro mediador diz respeito ao condicionamento da resposta erótica a estímulos associados à mãe. Por meio de experiências repetidas ou associações feitas durante o desenvolvimento, certos estímulos relacionados à figura materna passam a desencadear reações de excitação sexual. Esse condicionamento pode ocorrer de maneira sutil e progressiva, consolidando-se ao longo do tempo e tornando-se parte do repertório erótico do indivíduo.
O quarto mediador é a formação de roteiros cognitivo-sexuais que idealizam a relação, promovem exclusividade e geram confusão de papéis familiares. Esses roteiros são estruturas mentais que orientam as expectativas e interpretações sobre as relações íntimas. No contexto descrito, eles podem levar o indivíduo a idealizar a relação com a mãe, atribuindo-lhe um caráter único e exclusivo, ao mesmo tempo em que confundem os papéis tradicionais de mãe e parceiro(a) sexual, gerando conflitos internos e dificuldades de adaptação social.
O quinto mediador envolve a repetição da fantasia como mecanismo de reforço. A imaginação frequente de situações envolvendo a figura materna em contextos sexuais reforça e perpetua as associações previamente estabelecidas. Essa repetição contínua fortalece as conexões neurais relacionadas ao comportamento, tornando-o cada vez mais automático e difícil de ser modificado.
Por fim, o sexto mediador é a redução do controle inibitório diante de situações de estresse ou oportunidade. Sob condições de pressão emocional, ansiedade ou diante de oportunidades percebidas, a capacidade do indivíduo de inibir impulsos inadequados diminui significativamente. Esse enfraquecimento dos mecanismos de autocontrole facilita a manifestação do comportamento, mesmo que ele vá de encontro a normas sociais ou valores pessoais.
Dessa forma, os mediadores descritos na caixa roxa são essenciais para compreender como os fatores predisponentes se transformam em comportamentos observáveis, elucidando as etapas intermediárias desse processo complexo.
Esses mediadores explicam como uma predisposição pode se transformar em um padrão mais persistente de excitação.
Expressão — um contínuo
A caixa laranja serve para ilustrar de maneira clara a expressão de certos comportamentos ou pensamentos ao longo de um contínuo, o que é fundamental para evitar interpretações simplistas ou dicotômicas sobre o tema. Esse modelo propõe cinco níveis progressivos, permitindo uma compreensão mais detalhada e detalhada das diferentes manifestações.
No primeiro nível, encontramos a fantasia ou o interesse episódico, que ocorre de forma ocasional e não causa sofrimento significativo à pessoa, tampouco resulta em comportamentos manifestos. Trata-se de pensamentos ou desejos que surgem esporadicamente, sem impacto negativo na vida do indivíduo ou daqueles ao seu redor.
O segundo nível é caracterizado por um interesse recorrente, que passa a ter maior centralidade na excitação sexual da pessoa. Nesse estágio, o tema se torna mais frequente nos pensamentos e fantasias, podendo ser uma fonte importante de prazer, mas ainda sem causar prejuízos evidentes ou levar a ações concretas que afetem terceiros.
No terceiro nível, começa a surgir um quadro mais preocupante, com o aparecimento de sentimentos de culpa, compulsividade ou mesmo prejuízos nas áreas social e relacional. Aqui, o indivíduo pode sentir dificuldade em controlar os pensamentos ou impulsos, o que pode levar a conflitos internos e problemas em suas relações interpessoais, além de afetar seu bem-estar emocional.
O quarto nível envolve a aproximação sexual com transgressão de limites. Neste estágio, a pessoa pode começar a agir de maneira a ultrapassar fronteiras éticas, legais ou pessoais, envolvendo-se em comportamentos que podem ser prejudiciais a si mesma ou a outros. A transgressão pode ocorrer de diversas formas, incluindo a violação de normas sociais ou o desrespeito ao consentimento alheio.
Por fim, o quinto nível refere-se a situações de coerção, incapacidade de consentir ou envolvimento de menores, podendo evoluir para casos de violência ou abuso sexual. Esse é o estágio mais grave, em que há clara violação dos direitos e da integridade de outras pessoas, configurando situações de extrema gravidade e risco.
Essa estrutura enfatiza que, na grande maioria dos casos, as fantasias e interesses permanecem restritos aos níveis 1 ou 2, sem jamais progredir para comportamentos danosos ou ilegais. Assim, o modelo contribui para uma melhor compreensão e diferenciação entre pensamentos, desejos e ações, evitando julgamentos precipitados e promovendo uma abordagem mais informada e sensível ao tema.
Possíveis consequências
À direita da ilustração, encontra-se uma caixa vermelha que apresenta uma lista detalhada das possíveis consequências, organizadas conforme diferentes domínios de impacto.
No domínio intrapessoal, destacam-se sentimentos como culpa e vergonha, que podem surgir intensamente após determinados comportamentos, além de estados emocionais como ansiedade e depressão, os quais podem se manifestar de forma persistente e prejudicar o bem-estar psicológico. Também se observa a perda de autonomia, que representa a diminuição da capacidade de tomar decisões livres e conscientes sobre as próprias ações.
No âmbito relacional e familiar, as consequências incluem a ruptura da confiança entre os membros da família ou parceiros, o que pode gerar distanciamento e dificuldades de comunicação. Além disso, ocorre confusão de papéis dentro do núcleo familiar, tornando as relações mais complexas e, muitas vezes, promovendo conflitos constantes. O trauma, por sua vez, pode se instalar de maneira duradoura, afetando tanto quem vivencia diretamente a situação quanto os demais envolvidos no contexto familiar.
No que diz respeito ao domínio funcional e clínico, há prejuízos significativos na vida social ou ocupacional do indivíduo, como dificuldades de manter relacionamentos saudáveis ou de desempenhar funções no trabalho ou nos estudos. O surgimento de um ciclo compulsivo é outro aspecto relevante, caracterizado pela repetição de comportamentos indesejados, mesmo diante de consequências negativas, o que pode levar ao agravamento de comorbidades clínicas já existentes, como transtornos mentais ou dependências.
No domínio da proteção e do âmbito forense, são consideradas situações que envolvem menores de idade, coerção ou abuso de poder, as quais exigem a adoção de medidas de proteção específicas. Nesses casos, pode ser necessário acionar avaliações clínicas detalhadas e recorrer à legislação atual para garantir a segurança e os direitos das pessoas envolvidas.
Por fim, uma seta indica a possibilidade de retroalimentação entre as consequências e o início do processo. Isso significa que o sofrimento, o segredo e o isolamento social decorrentes das consequências podem, por sua vez, intensificar as fantasias e a repetição dos comportamentos, perpetuando um ciclo vicioso. Esse ciclo dificulta a resolução espontânea da situação, tornando fundamental a intervenção adequada para interromper essa dinâmica negativa.
Princípio de Interpretação Clínica
No rodapé da imagem, encontra-se destacado um princípio ético e clínico de fundamental importância para a prática profissional:
“Interesse ou fantasia não equivale automaticamente a transtorno, crime ou comportamento.”
Essa afirmação ressalta que a simples presença de pensamentos, desejos ou fantasias não deve ser, por si só, interpretada como sinal de patologia, ilegalidade ou ação concreta. É essencial compreender que interesses e fantasias fazem parte da diversidade da experiência humana e não configuram necessariamente um problema clínico ou social.
Na avaliação clínica, a prioridade é sempre realizar uma análise cuidadosa e criteriosa de diversos fatores que podem indicar a necessidade de intervenção. Entre esses fatores, destaca-se o grau de sofrimento subjetivo experimentado pela pessoa, que pode se manifestar como angústia, culpa, vergonha ou incômodo persistente em relação aos próprios pensamentos ou comportamentos. Além disso, é fundamental avaliar o prejuízo funcional, ou seja, o impacto negativo que esses interesses ou fantasias podem ter sobre a vida cotidiana do indivíduo, incluindo suas relações interpessoais, desempenho profissional e bem-estar geral.
Outro aspecto relevante é a compulsividade, que se refere à presença de comportamentos repetitivos e incontroláveis, mesmo diante de consequências negativas. A avaliação clínica também deve considerar o consentimento, elemento central para diferenciar práticas consensuais de situações de abuso ou violência. A idade das pessoas envolvidas é um critério indispensável, especialmente para garantir a proteção de indivíduos vulneráveis e respeitar os limites legais e éticos.
A capacidade de decisão, ou seja, a habilidade de compreender as implicações de suas escolhas e agir de forma autônoma, é outro ponto a ser cuidadosamente examinado. Por fim, a assimetria de poder entre as partes envolvidas deve ser avaliada, pois relações desiguais podem comprometer a liberdade de consentimento e aumentar o risco de exploração ou dano.
Essa orientação está em plena consonância com a distinção estabelecida pelo DSM-5, que diferencia parafilia — entendida como interesse sexual atípico, mas não necessariamente problemático — de transtorno parafílico, que só é diagnosticado quando há sofrimento significativo para o indivíduo ou risco de dano a si mesmo ou a terceiros. Dessa forma, o foco da avaliação clínica não está na mera presença de interesses ou fantasias, mas sim em seu impacto sobre a saúde mental, o funcionamento social e a segurança das pessoas envolvidas.
Implicações para a Prática Clínica
O modelo multifatorial apresentado constitui um guia abrangente e valioso para profissionais da área da saúde mental, pois oferece diretrizes claras e fundamentadas para o manejo de casos complexos. Em primeiro lugar, esse modelo previne a patologização automática de fantasias que, por si só, não causam dano ao indivíduo ou a terceiros. Isso significa que o profissional é orientado a diferenciar entre manifestações inofensivas da sexualidade e aquelas que podem representar riscos, evitando, assim, julgamentos precipitados ou intervenções desnecessárias que poderiam estigmatizar o paciente.
Além disso, o modelo enfatiza a importância de uma avaliação cuidadosa do contexto familiar do indivíduo, bem como da sua rede de apoio social e dos fatores de proteção presentes em sua vida. Essa análise detalhada permite compreender melhor as circunstâncias que envolvem o paciente, identificando recursos disponíveis e possíveis vulnerabilidades que possam influenciar o quadro clínico. Dessa forma, a intervenção pode ser adaptada às necessidades específicas de cada pessoa, promovendo um cuidado mais humanizado e eficaz.
Outro ponto fundamental do modelo é a orientação para que as intervenções sejam direcionadas à redução do sofrimento e à prevenção de danos, em vez de focarem exclusivamente na supressão do interesse ou da fantasia em si. Isso implica adotar estratégias terapêuticas que ajudem o paciente a lidar com possíveis angústias, conflitos internos ou dificuldades de relacionamento, priorizando sempre o alívio do sofrimento psíquico e a promoção do bem-estar.
O modelo também reforça a necessidade de uma abordagem interdisciplinar no manejo desses casos. Isso inclui a integração de diferentes modalidades de tratamento, como a psicoterapia – especialmente a abordagem cognitivo-comportamental, que tem se mostrado eficaz para diversas parafilias –, o suporte familiar, que pode ser fundamental para a adesão ao tratamento e para o fortalecimento dos fatores de proteção, e, quando necessário, a avaliação forense ou psiquiátrica para investigar a presença de comorbidades ou riscos adicionais.
Considerando que a literatura específica sobre matrolagnia ainda é bastante limitada, o manejo clínico desses casos deve ser sempre individualizado, respeitando as particularidades de cada paciente. É fundamental que as intervenções sejam pautadas por princípios éticos rigorosos e baseadas em diretrizes gerais para avaliação de parafilias e transtornos parafílicos.
Em todas as etapas do processo, deve-se priorizar o bem-estar do indivíduo, garantindo sua dignidade e autonomia, ao mesmo tempo em que se assegura a proteção de terceiros, prevenindo possíveis situações de risco.
Referências Aggrawal, A. (2009). Forensic and medico-legal aspects of sexual crimes and unusual sexual practices. CRC Press. American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). American Psychiatric Publishing.
OBS.: O modelo conceitual aqui descrito constitui uma ferramenta didática valiosa para estudantes, clínicos e pesquisadores interessados em parafilias raras, contribuindo para uma abordagem mais informada, compassiva e baseada em evidências.
Modelo Proposto de Fatores Relacionados com a Matrolagnia


Médico psiquiatra. Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Foi Professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC durante 26 anos. Coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria da FMABC por 20 anos, Pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP) durante 18 anos e Coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC (ABSex) durante 22 anos. Tem correntemente experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas e Transtornos da Sexualidade, atuando principalmente nos seguintes temas: Tratamento Farmacológico das Dependências Químicas, Alcoolismo, Clínica Forense e Transtornos da Sexualidade.

