O Silêncio da Chuva, de Luiz Alfredo Garcia-Roza.
“O Silêncio da Chuva”, romance policial escrito por Luiz Alfredo Garcia-Roza e publicado em 1996, é o primeiro livro da série protagonizada pelo inspetor Espinosa, um detetive reflexivo e bibliófilo da polícia carioca. A narrativa, ambientada no Rio de Janeiro, mescla elementos de mistério, psicologia e atmosfera urbana, explorando temas como a solidão, a corrupção e a complexidade das relações humanas. O livro é estruturado em três partes principais, com subdivisões que constroem uma trama intrincada de assassinatos e desaparecimentos, inspirada no gênero noir clássico, mas adaptada ao contexto brasileiro. A história começa com uma cena introspectiva e fatalista: um executivo bem-sucedido, Ricardo Carvalho, examina meticulosamente um revólver Colt Detective Special em seu escritório, carrega-o com seis balas, coloca-o em sua pasta junto com dinheiro e um envelope, despede-se de sua secretária Rose e de um amigo, Cláudio Lucena, após uma discussão banal, e dirige-se ao estacionamento do edifício-garagem Menezes Cortes, no centro do Rio. Lá, ele fuma um cigarro após meses de abstinência, reflete sobre eventos recentes com uma sensação de paz e, em seguida, encosta o cano da arma na têmpora direita e puxa o gatilho. Essa aparente cena de suicídio, descrita com detalhes sensoriais e psicológicos, contrasta a luminosidade da rua São José com a escuridão opressiva do estacionamento, estabelecendo o tom noir da obra. O corpo de Ricardo é descoberto horas depois, e o caso cai nas mãos do inspetor Espinosa, um policial da 12ª Delegacia, acostumado a rotinas tranquilas e plantões sem grandes incidentes. Espinosa, caracterizado por sua personalidade contemplativa – ele costuma refletir sobre a vida e a morte olhando o mar da praça Mauá –, inicia uma investigação que inicialmente aponta para suicídio, já que não há testemunhas, o carro estava trancado e não há sinais de luta. No entanto, anomalias surgem: a arma desaparece, assim como a pasta contendo dinheiro e documentos, sugerindo que alguém pode ter interferido na cena do crime. A trama se complica com o envolvimento de personagens próximos a Ricardo, como sua secretária Rose, que relata uma rotina normal no escritório; Cláudio Lucena, o amigo com quem ele discutiu; e Bia Vasconcelos, a noiva atraente e misteriosa de Ricardo, que herda uma apólice de seguro substancial. Na Parte I, intitulada “As Duas Artes” e “Max”, a narrativa aprofunda as investigações iniciais. Espinosa interroga os envolvidos e descobre camadas de intriga: Ricardo era um executivo bem-sucedido em uma empresa de mineração, mas há indícios de chantagem e segredos pessoais. Um novo personagem, Max, um oportunista que encontra a pasta de Ricardo no estacionamento e decide usá-la para proveito próprio, adiciona tensão, levando a um segundo assassinato brutal – uma mulher é asfixiada em seu apartamento em Copacabana. Esse crime, com crueldade, conecta-se ao primeiro, multiplicando os suspeitos e fazendo com que pessoas comecem a desaparecer misteriosamente. Espinosa, auxiliado por seu assistente Welber e pela perícia, navega por pistas ambíguas, como cartas roubadas e relações extraconjugais, enquanto reflete filosoficamente sobre a natureza humana. A Parte II, com capítulos como “Outubro” e “A Carta Roubada” (alusão ao conto de Edgar Allan Poe), intensifica o suspense. Espinosa desvenda uma rede de mentiras e motivações ocultas, envolvendo corrupção corporativa, traições amorosas e um menino de rua que se apodera de itens perdidos, complicando ainda mais o enredo. A chuva constante no Rio serve como metáfora para o silêncio opressivo que encobre os segredos, e o detetive, sem recorrer a violência excessiva, usa sua inteligência e empatia para conectar os pontos. A terceira parte, uma espécie de coda intitulada “Preferia Não o Fazer” (referência ao escriba Bartleby de Melville), resolve os mistérios de forma surpreendente, enfatizando o ceticismo existencial e a fragilidade das aparências. Ao longo do livro, Garcia-Roza, que era psicanalista, infunde profundidade psicológica aos personagens: Espinosa é um anti-herói solitário, apaixonado por livros e reflexões, que contrasta com o cinismo típico do noir; os suspeitos revelam facetas complexas, misturando inocência e culpa. A ambientação no Rio – com locais como Copacabana, a Praça Mauá e ruas do centro – transforma a cidade em um personagem vivo, cheio de contrastes sociais e sombras. O romance, premiado com o Jabuti e o Nestlé, é elogiado por sua trama labiríntica e estilo elegante, influenciado por autores como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, mas com um toque tropical e filosófico único. Em resumo, “O Silêncio da Chuva” é uma obra que transcende o gênero policial, explorando o enigma da mente humana em meio a uma investigação que revela mais sobre os vivos do que sobre os mortos, culminando em uma resolução que questiona a verdade absoluta.
Influências sobre o Autor
Baseado na análise do romance “O Silêncio da Chuva” de Luiz Alfredo Garcia-Roza, que inicia com uma cena introspectiva e fatalista envolvendo um executivo que examina meticulosamente uma arma (remetendo a clássicos do cinema policial) antes de um aparente suicídio em um estacionamento escuro, é possível identificar influências claras da chamada literatura noir. O estilo do autor, marcado por atmosfera urbana opressiva, exploração psicológica dos personagens, tramas intrincadas e um tom de ceticismo existencial, ecoa autores clássicos do gênero. Abaixo, listo os principais autores que provavelmente influenciaram a sua escrita, com explicações ancoradas no texto da obra e no contexto literário de Garcia-Roza, que era um psicanalista e leitor ávido de ficção policial.
1. Raymond Chandler
Por quê? Chandler é uma das influências mais diretas e declaradas em Garcia-Roza, especialmente no estilo narrativo que prioriza a atmosfera psicológica e o comportamento dos personagens sobre a ação violenta. Em “O Silêncio da Chuva”, a cena inicial foca na delicadeza sensorial do protagonista ao manusear a arma (peso, tato, inscrição “Detective Special”), evocando os detetives solitários e reflexivos de Chandler, como Philip Marlowe em romances como “O Sono Eterno”. A sensação de paz misturada com a tontura e lucidez antes do gatilho reflete o ceticismo, a angústia e a desconfiança inerentes ao noir chandleriano, onde o ambiente urbano (aqui, o contraste entre a luminosidade da rua São José e a escuridão do estacionamento Menezes Cortes no Rio de Janeiro) simboliza o isolamento interior. Garcia-Roza adapta isso a um contexto brasileiro, com o delegado Espinosa (protagonista da série) sendo um investigador filosófico e humanista, similar a Marlowe, mas menos cínico e mais introspectivo, influenciado pelo fundo psicanalítico do autor.
2. Dashiell Hammett
Por quê? Hammett, pioneiro do hard-boiled noir, influenciou Garcia-Roza na construção de tramas complexas com elementos de corrupção, mistério e realismo cru. A abertura da obra, com o protagonista carregando a arma, dinheiro e um envelope em uma pasta, sugere camadas ocultas de intriga (possivelmente crime encoberto como suicídio), reminiscentes das narrativas labirínticas de Hammett em “O Falcão Maltês” ou “Colheita Vermelha”, onde objetos cotidianos como armas carregam simbolismo fatalista. Garcia-Roza, como leitor confesso de Hammett, incorpora o tom seco e objetivo, sem excessos sentimentais, visto na descrição precisa dos movimentos do personagem (abrir o tambor, girá-lo, testar o gatilho). Isso contrasta com o noir mais romântico, enfatizando a lucidez fria antes da morte, e adapta o gênero ao Rio de Janeiro como uma cidade de contrastes e ambiguidades morais, similar às metrópoles corruptas de Hammett.
3. Arthur Conan Doyle
Por quê? Embora Doyle seja mais associado ao detetive clássico (não puramente noir), sua influência aparece na estrutura de mistério lógico e na figura do investigador cerebral, que Garcia-Roza atualiza para o noir contemporâneo. Em “O Silêncio da Chuva”, o aparente suicídio no carro – com detalhes minuciosos como o cigarro saboreado após meses de abstinência e o fechamento dos vidros – cria um enigma que demanda investigação metódica, ecoando as deduções de Sherlock Holmes em histórias como “Um Estudo em Vermelho”. Garcia-Roza citou Doyle como um de seus favoritos, influenciando a série de Espinosa, onde o detetive resolve crimes através de raciocínio psicológico e observação, mas com um viés noir: menos ênfase na resolução triunfante e mais no vazio existencial. Isso se alinha ao fundo filosófico de Garcia-Roza, transformando o mistério em uma exploração da mente humana.
4. Rubem Fonseca (influência brasileira contemporânea)
Por quê? Como autor brasileiro pioneiro no noir nacional, Fonseca influenciou Garcia-Roza na adaptação do gênero ao contexto urbano brasileiro, com violência implícita e crítica social sutil. Em “O Silêncio da Chuva”, a discussão com Cláudio Lucena e a despedida casual da secretária Rose sugerem relações pessoais tensas em um ambiente corporativo, semelhantes às narrativas de Fonseca em “Agosto” ou “O Caso Morel”, onde o crime revela camadas de hipocrisia social. Fonseca e Garcia-Roza compartilham a ambientação no Rio, com foco em personagens comuns imersos em dilemas morais, mas Garcia-Roza adiciona profundidade psicanalítica, diferenciando-se pela introspecção em vez da brutalidade explícita.
Essas influências são evidentes não só no início da obra, que estabelece um tom de inevitabilidade noir, mas em toda a série de Espinosa, onde Garcia-Roza mescla o hard-boiled americano com elementos psicológicos e um Rio de Janeiro “noir tropical”. Seu background em psicanálise amplifica o foco no interior dos personagens, tornando suas histórias mais reflexivas que as dos precursores clássicos.
Inserção de “O Silêncio da Chuva” na Teoria da Literatura Noir.
A literatura noir, gênero que emergiu principalmente nos Estados Unidos nas décadas de 1920 e 1930, e que se consolidou no pós-guerra, é caracterizada por uma série de elementos narrativos, temáticos e estilísticos que a distinguem de outras formas de ficção policial ou detetivesca. Para inserir uma obra como “O Silêncio da Chuva” de Garcia-Roza nesse contexto teórico, é essencial definir critérios claros para tal classificação. Esses critérios não são rígidos, pois o noir é um gênero fluido, influenciado por contextos culturais e adaptações regionais, como o “noir tropical” brasileiro. No entanto, baseados em estudos clássicos como os de Megan E. Abbott em “The Street Was Mine: White Masculinity in Hardboiled Fiction and Film Noir” e na abordagem narratológica de Sarah J. Link em “A Narratological Approach to Lists in Detective Fiction”, podemos estabelecer parâmetros que enfatizam a atmosfera opressiva, a psicologia dos personagens, a crítica social e as estruturas narrativas intrincadas.
A seguir, defino esses critérios e exemplifico como a obra de Garcia-Roza se enquadra neles, demonstrando sua pertinência ao cânone noir.
Definição de Critérios para a Literatura Noir
Atmosfera Urbana Opressiva e Fatalista: o noir tipicamente se ambienta em cidades sombrias, onde o ambiente urbano reflete o caos interior dos personagens. A chuva, a escuridão e os espaços confinados simbolizam o inevitável declínio moral ou existencial. A obra deve usar o cenário para evocar um senso de inevitabilidade, onde o destino parece predeterminado, ecoando o pessimismo existencial influenciado por autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler.
Personagens Moralmente Ambíguos e Solitários: os protagonistas, frequentemente detetives ou anti-heróis, são figuras isoladas, reflexivas e cínicas, que navegam por um mundo de corrupção sem heróis puros. Influências psicanalíticas, como as de Garcia-Roza (ele próprio psicanalista), amplificam a exploração da mente humana. De fato, os personagens devem exibir camadas psicológicas profundas, com motivações que borram as linhas entre bem e mal, similar ao hard-boiled onde a masculinidade é questionada, como discutido por Abbott.
Tramas Intrincadas com Temas de Corrupção e Violência Implícita: diferente da ficção detetivesca clássica (ex.: Arthur Conan Doyle), o noir prioriza o mistério labiríntico, com reviravoltas que revelam corrupção sistêmica, traições e violência psicológica mais que física. Link destaca o uso de “listas” narrativas para organizar pistas, criando tensão cognitiva. Na verdade, a narrativa deve envolver enigmas que transcendem o crime individual, criticando sociedade, poder e relações humanas, com resolução que questiona a justiça.
Estilo Narrativo Reflexivo e Sensorial: o texto noir é seco, objetivo, com descrições sensoriais que enfatizam o tato, o som e a visão em ambientes opressivos. Adaptado ao contexto brasileiro, inclui críticas sociais sutis, como desigualdades urbanas. A escrita deve priorizar introspecção sobre ação, com alusões literárias (ex.: Poe, Melville) para enriquecer o tom existencial.
Esses critérios permitem uma inserção flexível, reconhecendo que o noir não é exclusivo do hard-boiled americano, mas pode ser adaptado, como em Rubem Fonseca ou no próprio Garcia-Roza, que mescla o gênero com elementos filosóficos e psicanalíticos.
Exemplificações da Inserção de “O Silêncio da Chuva” no Noir
“O Silêncio da Chuva” atende a esses critérios de forma exemplar, inserindo-se na teoria noir como uma variação brasileira que mantém a essência do gênero enquanto adapta-o ao contexto carioca. A obra inicia com uma cena fatalista: Ricardo Carvalho, executivo da Planalto Minerações, examina meticulosamente um revólver Colt Detective Special, carrega-o e comete suicídio em um estacionamento escuro do centro do Rio de Janeiro. Essa abertura estabelece a atmosfera opressiva (critério 1), contrastando a luminosidade da rua São José com a escuridão do Menezes Cortes, simbolizando o isolamento existencial. A chuva constante, metaforizada no título, reforça o fatalismo: “A chuva constante no Rio serve como metáfora para o silêncio opressivo que encobre os segredos”, evocando o pessimismo chandleriano onde o ambiente urbano é um personagem asfixiante.
Os personagens são paradigmas de ambiguidade moral (critério 2). O inspetor Espinosa, protagonista reflexivo e bibliófilo, é um anti-herói solitário que reflete sobre a vida na praça Mauá, olhando o mar enquanto investiga. Diferente do cínico Philip Marlowe, Espinosa é humanista, influenciado pelo background psicanalítico do autor, explorando a psicologia profunda: “Espinosa, caracterizado por sua personalidade contemplativa – ele costuma refletir sobre a vida e a morte olhando o mar da praça Mauá”. Suspeitos como Bia Vasconcelos (noiva atraente e misteriosa) e Cláudio Lucena (amigo corporativo) revelam camadas de traição e corrupção, ecoando a masculinidade fragilizada discutida por Abbott. Max, o oportunista que encontra a pasta de Ricardo, exemplifica o marginal urbano, moralmente cinzento, que adiciona tensão sem ser vilão caricatural.
A trama intrincada atende ao critério 3, com enigmas que transcendem o suicídio inicial. Anomalias como o desaparecimento da arma e da pasta levam a uma rede de mentiras envolvendo corrupção corporativa na Planalto Minerações, traições amorosas e assassinatos subsequentes (Maura, mãe de Rose, asfixiada; Max, queimado). Garcia-Roza usa estruturas narrativas como “listas” de pistas (inspirado em Link), enumerando interrogatórios e evidências: interrogatórios de Rose (secretária), Bia, Júlio e outros, construindo um quebra-cabeças que critica o capitalismo predatório brasileiro. A resolução, com a carta suicida revelando um seguro de um milhão de dólares, questiona a verdade absoluta, enfatizando o ceticismo existencial: “culminando em uma resolução que questiona a verdade absoluta”.
O estilo narrativo (critério 4) é reflexivo e sensorial, com descrições precisas: “Examinou a arma com a delicadeza de quem examina uma peça rara. Sentiu-lhe o peso, correu o dedo pelo cano até a alça de mira”. Alusões a Poe (“A Carta Roubada”) e Melville (“Preferia Não o Fazer”) enriquecem o tom filosófico, adaptando o noir ao “noir tropical” do Rio, com contrastes sociais (praça Mauá, Copacabana vs. escritórios luxuosos).
“O Silêncio da Chuva” insere-se na teoria noir ao atender esses quatro critérios, transcendendo o detetivesco clássico para uma exploração psicanalítica e social. Como pioneira da série Espinosa, a obra adapta influências americanas (Chandler, Hammett) ao contexto brasileiro, enriquecendo o gênero com introspecção e crítica urbana, confirmando Garcia-Roza como um autor que renova o noir sem perder sua essência sombria e fatalista.
A Importância de “O Silêncio da Chuva” e da Literatura Noir para a Psiquiatria Moderna: Uma Interface Interdisciplinar
A literatura noir, com suas raízes no hard-boiled americano dos anos 1920 e 1930, evoluiu para um gênero que transcende o mero entretenimento, oferecendo uma outra lente para examinar o psiquismo humano em contextos de crise existencial, moral e social. Obras como “O Silêncio da Chuva” (1996), de Luiz Alfredo Garcia-Roza, exemplificam essa tradição ao adaptar o noir ao contexto brasileiro, infundindo-o com elementos filosóficos e psicanalíticos. Como psicanalista de formação, Garcia-Roza constrói narrativas que não apenas desvendam mistérios criminais, mas também exploram personalidades e aspectos comportamentais, revelando temas como solidão, trauma e ambiguidade moral. Essa interseção entre literatura noir e psiquiatria moderna é particularmente relevante hoje, quando disciplinas como a psiquiatria narrativa e a terapia cognitivo-comportamental incorporam histórias fictícias para fomentar empatia, compreender transtornos mentais e promover a resiliência emocional. Neste texto, exploramos como “O Silêncio da Chuva” e o gênero noir em geral contribuem para a psiquiatria contemporânea, promovendo uma abordagem mais humanizada e sutil no cuidado mental.
No coração da literatura noir está a representação da fragilidade humana em ambientes urbanos opressivos, onde personagens enfrentam dilemas éticos e psicológicos que ecoam condições clínicas reais. Em “O Silêncio da Chuva”, o inspetor Espinosa, um detetive reflexivo e bibliófilo, personifica o anti-herói noir: solitário, contemplativo e imerso em um mundo de corrupção e violência implícita. Sua investigação sobre o aparente suicídio de Ricardo Carvalho revela fatias de trauma psicológico, incluindo chantagem, traições amorosas e segredos familiares, que se entrelaçam com a chuva constante do Rio de Janeiro como metáfora para o “silêncio opressivo” que encobre os segredos dos personagens (Garcia-Roza, 1996). Essa narrativa ressoa com conceitos psiquiátricos modernos, como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e a depressão. Por exemplo, o personagem Max, um oportunista que rouba itens da cena do crime, exemplifica mecanismos de defesa primitivos, como a projeção e a negação, que Freud (1923) descreveu em “O Ego e o Id” como respostas inconscientes a ameaças internas.
A importância dessa obra para a psiquiatria reside em sua capacidade de ilustrar a complexidade da personalidade, alinhando-se à teoria freudiana de que o ego medeia entre impulsos id (instintos primitivos) e as demandas sociais. Espinosa, com sua empatia e inteligência reflexiva, contrasta com o cinismo típico do noir, oferecendo um modelo de resiliência que pode inspirar profissionais de saúde mental. Estudos recentes em psiquiatria narrativa, como os de Rose (2018), destacam como narrativas fictícias, semelhantes às de Garcia-Roza, ajudam a processar memórias traumáticas. Em seu artigo sobre a trilogia Millennium de Stieg Larsson, Rose argumenta que personagens hiperbolizados, como Lisbeth Salander, servem como “dispositivos socio-literários” para conscientizar sobre o abuso infantil e a amnésia traumática, paralelamente à neurologia do trauma discutida por Muriel Salmona (2013). Da mesma forma, “O Silêncio da Chuva” usa o trauma de infância implícito em personagens secundários, como o menino de rua que coleta itens perdidos, para explorar como experiências adversas na infância podem moldar comportamentos adultos, um conceito central na epidemiologia psiquiátrica moderna (Felitti et al., 1998).
Expandindo para o gênero noir como um todo, sua relevância para a psiquiatria moderna é multifacetada. Historicamente, o noir surgiu em um período de pós-guerra, refletindo ansiedades coletivas sobre alienação e perda de identidade, temas que ecoam nos transtornos de personalidade borderline e narcisista diagnosticados hoje. Autores como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, influências declaradas de Garcia-Roza, criaram detetives como Philip Marlowe, cujas narrativas introspectivas revelam lutas internas com moralidade e isolamento. Beveridge (1998) compara o detetive fictício ao psiquiatra, ambos processando dados fragmentados – sintomas mentais, biografias e contextos sociais – para construir uma “teoria explicativa plausível”. No entanto, sob a lente pós-modernista, Beveridge questiona se essa busca por uma “verdade única” é ilusória, alinhando-se à visão de Hodgkin (1996) de que a psiquiatria deve abraçar múltiplas “verdades” contingentes, em vez de um diagnóstico fixo.
A literatura noir, com suas narrativas ambíguas e finais inconclusivos, prepara os profissionais para essa complexidade, fomentando humildade epistêmica.
Um exemplo contemporâneo é visto em análises psicanalíticas de filmes noir, como “Memento” de Christopher Nolan, onde Öksüzoğlu (2024) aplica a analogia do iceberg de Freud para explorar o inconsciente do protagonista Leonard Shelby, cuja amnésia anterógrada reflete uma desconexão entre consciente e inconsciente. Shelby usa tatuagens e notas como “escudos psicológicos” para lidar com trauma, semelhante aos mecanismos de defesa em pacientes com dissociação. Essa abordagem interpretativa revela como o noir captura o “medo de não ter propósito” e a repressão, emoções que psiquiatras encontram em transtornos de ansiedade e depressão. Similarmente, em “The Silent Patient” de Alex Michaelides, Shoukat et al. (n.d.) analisam Theo Faber através do id e ego freudianos, mostrando como impulsos sexuais e agressivos (instintos de vida e morte) levam a decisões irracionais, ecoando os dilemas éticos em “O Silêncio da Chuva”.
Além da análise teórica, a literatura noir oferece ferramentas práticas para a psiquiatria moderna. Na terapia narrativa, desenvolvida por White e Epston (1990), pacientes reescrevem suas histórias de vida para combater narrativas dominantes de fracasso ou trauma. Obras noir, com suas explorações de redenção em meio ao caos, podem ser prescritas como “biblioterapia”, ajudando pacientes a externalizar angústias. Por exemplo, o estudo de Sooryah e Soundarya (n.d.) sobre “Hannibal Rising” de Thomas Harris examina como o trauma infantil transforma Hannibal Lecter em um canibal, ilustrando mecanismos como sublimação e projeção. Essa narrativa extrema conscientiza sobre transtornos dissociativos, encorajando empatia em terapeutas. Izzati (2022), em sua análise psicanalítica de “Short Term 12”, destaca como personagens lidam com ansiedade através de defesas, paralelamente aos pacientes em instituições psiquiátricas.
Ademais, o noir brasileiro de Garcia-Roza adiciona uma dimensão cultural, adaptando o gênero ao “noir tropical” com críticas sociais à desigualdade urbana, que se relacionam com a psiquiatria comunitária. No Brasil, onde taxas de violência e trauma são altas, obras como essa podem informar intervenções culturais sensíveis, como programas de saúde mental que incorporam literatura local para reduzir o estigma (Fałkowska et al., 2018). Síndromes raras, como o de Cotard (delírio de negação) ou Ekbom (delírio de infestação), descritas em contextos noir, ajudam psiquiatras a reconhecer padrões delirantes em pacientes, como visto em narrativas de isolamento existencial.
“O Silêncio da Chuva” e a literatura noir não são meras distrações; são laboratórios narrativos que enriquecem a psiquiatria moderna, promovendo uma compreensão mais profunda do comportamento humano. Ao humanizar o sofrimento – transformando abstrações clínicas em histórias vivas – o gênero incentiva profissionais a adotar abordagens integrativas, combinando ciência com arte. Como Freud (1923) observou, o inconsciente é um reservatório de impulsos reprimidos; a literatura noir nos convida a mergulhar nele, fomentando cura através da reflexão compartilhada. Futuras pesquisas poderiam explorar intervenções baseadas em noir para populações vulneráveis, solidificando essa interface interdisciplinar.
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Médico psiquiatra. Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Foi Professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC durante 26 anos. Coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria da FMABC por 20 anos, Pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP) durante 18 anos e Coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC (ABSex) durante 22 anos. Tem correntemente experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas e Transtornos da Sexualidade, atuando principalmente nos seguintes temas: Tratamento Farmacológico das Dependências Químicas, Alcoolismo, Clínica Forense e Transtornos da Sexualidade.

