Leitura Sintópica de Quatro Obras de Raymond Chandler

Evolução das Características Pessoais e Psicológicas de Philip Marlowe ao Decorrer de Uma Década

 

Resumo

Este artigo faz uma análise sintópica de quatro livros de Raymond Chandler: O Sono Eterno (1939), A Dama do Lago (1943), A Irmãzinha (1949) e O Longo Adeus (1953). A análise concentra-se nos traços pessoais e psicológicos do protagonista Philip Marlowe, examinando sua evolução ao longo de cerca de 14 anos (de 1939 a 1953, cobrindo uma década e meia). Em um primeiro momento, são expostos diversos comentários concernentes a cada uma das obras analisadas, enfatizando não apenas o contexto narrativo em que se inserem, mas também a importância e o papel desempenhado por Marlowe dentro dessas narrativas. A seguir, realizamos uma análise aprofundada sobre os traços que se mostram constantes, como o cinismo, a integridade e a solidão, em contrapartida àqueles que apresentam variações, ou seja, que são mutáveis, como é o caso do aumento da melancolia e da natureza reflexiva. Essa investigação busca compreender como esses aspectos da personalidade são percebidos e como influenciam o comportamento e as relações interpessoais ao longo do tempo. A leitura sintópica retrata Marlowe como um investigador “hard-boiled”, refletindo as mudanças socioculturais que se seguiram à Grande Depressão nos Estados Unidos. Embora transite por um ambiente social marcado pela corrupção e decadência, ele preserva, de maneira admirável, um código moral sólido e claro, que se sobressai diante dessa realidade adversa.

Palavras-chave: Raymond Chandler, Philip Marlowe, leitura sintópica, evolução de personagem, literatura noir.

Introdução

A leitura sintópica representa o grau mais elevado e complexo de interação com textos, transcendendo a mera compreensão de uma única obra. Esse tipo de leitura envolve uma análise comparativa e integrativa de diversas obras literárias que tratam de um tema ou questão comum, permitindo assim uma discussão mais profunda e abrangente sobre os conteúdos apresentados. A prática desse método, conforme mencionado por Adler em 1940, implica não apenas em entender individualmente cada texto, mas também estabelecer conexões significativas entre eles, explorando como autores abordam um mesmo assunto sob diversas perspectivas. Dessa forma, a leitura sintópica se torna uma ferramenta poderosa para o aprofundamento do conhecimento em um determinado campo de estudo. Ao contrário de outros níveis de leitura — elementar, inspecional e analítica —, a leitura sintópica vai além de extrair o significado intrínseco de cada texto isoladamente. Em vez disso, exige que o leitor atue como um mediador imparcial, criando um diálogo imaginário entre diferentes autores e/ou obras, frequentemente separados por épocas, estilos ou perspectivas, para explorar aspectos mais profundos do tema em questão. Adler caracteriza esse procedimento como uma “leitura comparativa”, que consiste em identificar trechos significativos em diversas obras, traduzir terminologias específicas para uma linguagem comum, formular perguntas centrais que os autores respondem (ou não) e, por fim, analisar a discussão resultante para obter percepções originais e contrastes reveladores (Adler & Van Doren, 1972).

Essa metodologia que estamos discutindo pode ser caracterizada como uma abordagem que é tanto ativa quanto inovadora, em oposição a uma abordagem meramente passiva. Nesse contexto, cabe ao leitor ou ao pesquisador realizar uma análise inicial dos livros, a fim de identificar aqueles que são realmente relevantes para a sua investigação. Além disso, é fundamental que ele estabeleça com clareza o escopo do tema a ser abordado. Mais importante ainda, essa análise deve levar à “elaboração” de um novo texto mental, que tenha a capacidade de sintetizar as diversas contribuições que foram feitas de forma coletiva, ao mesmo tempo em que destaca padrões, evoluções e até mesmo contradições que, de outra maneira, poucos autores conseguiriam perceber de forma isolada e individual. Essa atividade demanda uma atenção especial e um olhar crítico e profundo sobre o material disponível.

No campo da literatura, a prática da leitura sintópica oferece a oportunidade de traçar um mapeamento detalhado da evolução de ideias ou personagens ao longo de uma obra específica, além de permitir a contextualização dessas mudanças dentro de um panorama histórico, social e cultural que é mais abrangente. Dessa forma, essa abordagem proporciona uma compreensão global das obras literárias, contribuindo significativamente para um enriquecimento da crítica literária ao oferecer uma análise mais profunda e integrada. A presente pesquisa, ao aplicar essa abordagem metodológica em obras do autor Raymond Chandler, realiza uma análise do personagem detetive Philip Marlowe, não o considerando como uma entidade estática ou singular, mas sim como um arquétipo que está em incessante evolução. Essa evolução do personagem espelha os desafios e complexidades de uma época marcada por crises de grande escala e transformações sociais significativas.

Chandler, um autor cuja vida se estendeu entre os anos de 1888 e 1959, possuía origens britânicas. Entretanto, ele se transformou em um cidadão americano ao se deslocar para os Estados Unidos durante a sua adolescência, fato que marcou uma importante transição em sua vida e carreira literária. A trajetória profissional dele teve seu início no ramo do petróleo, mais especificamente no setor petrolífero, onde ele atuou e exerceu suas atividades por um período considerável. Entretanto, foi a partir do momento em que tomou a decisão de direcionar a sua trajetória profissional para o campo da literatura que ele realmente se destacou, conquistando reconhecimento e se estabelecendo como uma figura relevante e influente no gênero literário conhecido como noir. A sua participação e influência nesse estilo específico de escrita são amplamente valorizadas e reconhecidas por muitos. A sua produção literária foi fortemente influenciada pela apreciação e leitura de revistas pulp, que fizeram enorme sucesso durante as décadas de 1920 e 1930. Um exemplo notável dessa época é a renomada e icônica revista Black Mask, que se destacou entre as publicações do gênero. Essas revistas, frequentemente caracterizadas por histórias de crime e detetives, deixaram uma marca indelével em sua obra, moldando não apenas seu estilo, mas também suas temáticas e narrativas. Nos periódicos mencionados, o autor teve a chance de divulgar uma variedade de contos que, ao longo do tempo, acabaram se tornando uma importante fonte de inspiração para a elaboração das suas novelas. Essa situação revela de maneira clara a significativa influência que essas leituras tiveram sobre a sua produção no âmbito literário, moldando assim o seu estilo e as suas narrativas criativas (Hiney, 1997).

Marlowe, que foi introduzido ao público leitor na obra intitulada “O Sono Eterno”, publicada no ano de 1939, encarna a figura do típico detetive do gênero “hard-boiled”. Ele é caracterizado como um investigador particular que adota uma postura cínica e solitária, possuindo uma integridade que se mantém firme e inalterada, mesmo diante das adversidades. Esse personagem navega pelas escuras e traiçoeiras ruas da corrupção que permeiam Los Angeles, uma cidade que, por sua vez, se torna um símbolo da decadência moral que afeta as grandes metrópoles dos Estados Unidos da América. A sua individualidade, que é moldada por um conjunto de princípios morais que o distinguem claramente das pessoas corruptas presentes em seu entorno, funciona como uma espécie de filtro que possibilita a análise de questões que se repetem com frequência na narrativa noir. Esses temas incluem a alienação experimentada pelos indivíduos, a violência que permeia a sociedade e a incessante procura por justiça em um contexto em que não existem heróis convencionais. Essa exploração profunda revela a complexidade e a ambiguidade moral que caracterizam esse gênero literário.

As obras que foram escolhidas para compor esta análise sintópica — que inclui títulos como O Sono Eterno, publicado em 1939, A Dama do Lago, lançado em 1943, A Irmãzinha, datado de 1949, e O Longo Adeus, que veio a público em 1953 — cobrem um extenso período que abrange quase 14 anos. O intervalo temporal mencionado abrange uma variedade de momentos históricos que são considerados bastante significativos e impactantes. Entre esses momentos, podemos destacar a época que antecedeu a eclosão da Segunda Guerra Mundial, assim como o desenvolvimento e os eventos marcantes que ocorreram ao longo dessa mesma guerra. Além disso, inclui também o período que se segue imediatamente após o término da guerra, englobando, por outro lado, o início da Guerra Fria, que caracterizou as relações internacionais de uma nova forma, e ainda o fenômeno conhecido como Macartismo, que teve implicações profundas na sociedade e na política da época. O período mencionado não pode ser visto simplesmente como um momento aleatório e sem significado, uma vez que abrange de fato diversas transformações profundas que ocorreram no âmbito sociocultural nos Estados Unidos. Esse intervalo vai desde os efeitos remanescentes da Grande Depressão, que impactou a economia e a sociedade de maneira drástica, até a época marcada pelo significativo crescimento econômico, além das inquietações e da intensa paranoia ideológica que se manifestou nesse cenário. Portanto, é essencial reconhecer que as mudanças nesse período foram substanciais e influenciaram diversos aspectos da vida social e política. As transformações socioculturais mencionadas afetam diretamente a psicologia do personagem que está sendo analisado, de acordo com as observações feitas por MacShane no ano de 1976. Essa relação entre as mudanças no contexto social e cultural e o desenvolvimento psicológico do personagem revela a profunda conexão entre o ambiente em que ele está inserido e suas reações emocionais e comportamentais. Dessa maneira, a obra de MacShane evidencia a importância de considerar esses fatores socioculturais ao se estudar a psicologia dos indivíduos representados nas narrativas.

De acordo com os preceitos de Adler, este estudo avança em duas etapas principais: primeiro, uma análise e observação individualizada de cada obra, enfatizando o contexto narrativo, os elementos temáticos e o papel de Marlowe; em segundo lugar, uma avaliação comparativa das características pessoais e psicológicas do protagonista, diferenciando traços duradouros (como cinismo, integridade e solidão) daqueles mutáveis (como o aumento da melancolia e reflexividade). Essa leitura sintópica revela Marlowe não só como um detetive fictício, mas também como um reflexo da alma americana, transformando-se de um herói vibrante e sarcástico em uma figura introspectiva e desencantada, marcada pelas guerras e pelas mudanças sociais. Essa metodologia possibilita a obtenção de percepções sobre a maneira como Chandler emprega o personagem para denunciar a corrupção generalizada, ao passo que mantém um núcleo de humanidade resiliente. Isso contribui para uma compreensão mais abrangente da literatura noir como um reflexo histórico (Adler, 1940; Adler & Van Doren, 1972).

Comentários a respeito das obras escolhidas

  • O Sono Eterno (1939). Publicado em 1939, “O Sono Eterno” (original: “The Big Sleep”) apresenta Philip Marlowe, um detetive de 33 anos, contratado pelo General Sternwood para investigar um caso de chantagem relacionado à sua filha Carmen. A história se desenrola em um ambiente repleto de pornografia, homicídios e práticas de corrupção dentro do núcleo familiar, o que leva a importantes revelações acerca de Rusty Regan, que é o genro do general e que, de forma intrigante, se encontra desaparecido. Esses elementos da narrativa se entrelaçam para criar um enredo complexo e cheio de mistérios. Marlowe é caracterizado como um verdadeiro “cavaleiro contemporâneo” que navega por um universo cheio de corrupção e desonestidade. Seu perfil se destaca por ser ao mesmo tempo honesto e cínico, possuindo uma visão crítica da realidade que o cerca. Ele está disposto a investir seu tempo e esforços na busca pela verdade, aceitando para isso um pagamento de apenas US$ 25 diários. Essa mescla de virtudes e a vontade de desvendar mistérios, mesmo em um cenário tão hostil, fazem dele uma figura única e cativante. Sua integridade se sobressai de forma significativa ao recusar subornos e ao defender com firmeza aqueles que estão em situação de vulnerabilidade. Isso ocorre mesmo quando nós nos deparamos diariamente com cenas de morte e decadência, que são uma realidade pesada e difícil de aceitar. Essa postura corajosa, portanto, é uma demonstração de valores éticos profundos, que se mantêm firmes mesmo em face das adversidades que o cercam. A história é marcada por diálogos incisivos e provocativos, além de descrições vívidas e detalhadas da cidade de Los Angeles. Esses elementos combinados estabelecem e reforçam o tom característico do gênero noir. Essa abordagem possibilita que o leitor se imerja completamente no ambiente e nas interações dos personagens, ressaltando a atmosfera sombria e intrigante típica desse tipo de narrativa. Marlowe demonstra uma quantidade maior de energia e sarcasmo em sua personalidade, o que evidencia um certo otimismo que se faz presente em relação ao período que antecede a guerra. Essa atitude reflete uma perspectiva mais positiva que caracterizava aqueles tempos, em que, antes dos conflitos começarem, as pessoas ainda alimentavam esperanças e expectativas sobre o futuro.

  • A Dama do Lago (1943). Em A Dama do Lago (original: The Lady in the Lake), lançado em 1943 durante a Segunda Guerra, Marlowe é contratado por Derace Kingsley para localizar sua esposa desaparecida, Crystal. A investigação conduz a um lago isolado, onde um corpo é encontrado, expondo identidades falsas, homicídio e corrupção policial. Marlowe exibe astúcia ao decifrar pistas; porém, a sua personalidade denota cansaço: ele é “velho o suficiente para ter visto tudo”. Sua integridade pessoal permanece firme e inabalável ao lidar com autoridades corruptas e desonestas; contudo, há sinais que indicam um crescimento no seu afastamento social, o que pode ser afetado de forma negativa pelo ambiente conflituoso e pela guerra que se desenrola ao seu redor. A trama explora questões de identidade e engano, com Marlowe desempenhando o papel de um observador externo do cenário. Entretanto, a postura adotada por Marlowe, que se caracteriza por uma constante busca por investigar e entender situações, muitas vezes resulta em uma percepção negativa por parte dos outros, levando-o a ser observado com receio e desconfiança. Essa tendência em querer saber mais a respeito dos fatos e das circunstâncias que o cercam provoca, assim, um ar de suspeita em relação a seus intentos. No caso em questão, é possível observar que ele demonstra uma abordagem mais estratégica e cuidadosa, apresentando-se de maneira significativamente menos impulsiva em comparação com o que foi verificado anteriormente em O Sono Eterno.

  • A Irmãzinha (1949). Esta obra, que foi lançada no ano de 1949, está situada no contexto histórico do período que se segue à Segunda Guerra Mundial. Neste romance, o protagonista Marlowe se dedica a conduzir uma investigação em busca do irmão desaparecido de Orfamay Quest, uma jovem que é originária do estado do Kansas. Essa narrativa mergulha o leitor em uma trama envolvente, onde os desdobramentos da investigação revelam não apenas a busca por um familiar, mas também a situação da sociedade na época. A história em questão trata de diversos aspectos do universo cinematográfico de Hollywood, abordando temas como uso de drogas, chantagens e até homicídios. Dessa forma, o texto critica de maneira incisiva a indústria do cinema, ressaltando as complexidades e os obstáculos que a cercam. Essa crítica se desdobra em várias camadas, mostrando como esses elementos estão interconectados e como impactam a vida das pessoas envolvidas nesse cenário. Marlowe expõe sua vulnerabilidade de forma mais clara e perceptível ao se entregar a um consumo excessivo de bebidas alcoólicas, além de adotar atitudes pouco éticas, como a prática de mentiras de maneira eventual. A conduta que ele manifesta revela a fragilidade de sua situação emocional e psicológica, sinalizando uma necessidade de evasão e de encarar os desafios que se apresentam em sua existência. Ele se vê imerso em uma reflexão profunda sobre sua própria natureza e humanidade, a ponto de externar esse dilema ao se questionar com a frase provocativa: “Você não é humano esta noite, Marlowe”. Essa introspecção pessoal revela uma profunda sensação de angústia existencial que atravessa e influencia toda a sua trajetória ao longo da vida. A sua aversão à humanidade vem aumentando gradativamente; no entanto, ele persiste em não se deixar corromper, dedicando-se a ajudar aqueles que são inocentes e não têm culpa nas situações adversas que enfrentam. A obra literária em questão é marcada por uma profunda reflexão e por conter várias digressões que tratam de aspectos importantes da sociedade atual. Nela, o personagem Marlowe é apresentado como uma figura que representa, de maneira significativa, os traços e características de uma era marcada pelo desencanto e pela desilusão. Essa construção do protagonista destaca como ele, ao longo da narrativa, reflete as inquietações e os dilemas sociais de um tempo em que muitos valores e certezas foram questionados. A sua transformação é evidente no confronto que se trava dentro de si mesmo, especificamente na luta contra o cinismo em sua forma mais extrema e totalizante.

  • O Longo Adeus (1953). Publicado em 1953, este livro (original: The Long Goodbye) é considerado a obra mais ambiciosa de Chandler. Marlowe ajuda Terry Lennox, um ex-militar alcoolista, que foge após o suposto assassinato da sua esposa. A investigação que está em andamento abrange elementos intrigantes, como a presença de milionários envolvidos, questões relacionadas a suicídio e aspectos de traição. Nesse contexto, Marlowe se encontra detido e passando por um processo de questionamento que visa esclarecer os fatos. O personagem apresenta uma disposição melancólica, estando imerso em profundas reflexões acerca dos temas amizade e moralidade, ao expressar: “Eu agora sou um fragmento da sujeira que me cerca”. Essa afirmação revela um estado de desolação, evidenciando a forma como ele se vê em relação à sua condição atual, como se estivesse manchado ou comprometido por circunstâncias que o afastam de valores mais elevados e da verdadeira essência da amizade. A sua propensão à misantropia, que é claramente perceptível nas suas atitudes e comportamentos, é notória. No entanto, é importante ressaltar que ele demonstra uma firmeza moral e um comprometimento com seus princípios, já que se recusa a aceitar qualquer forma de pagamentos que sejam considerados ilícitos ou ilegais, preservando assim sua integridade pessoal. A obra literária aborda de maneira profunda e reflexiva as temáticas do isolamento e da desilusão que surgem após um conflito bélico, apresentando Marlowe como um protagonista que se sente deslocado, mas adestrado em um mundo que parece cada vez mais voltado para o consumismo e as superficialidades do dia a dia. Dessa forma, a narrativa revela as dificuldades que ele enfrenta ao tentar encontrar seu lugar em uma sociedade que valoriza cada vez mais o material em detrimento de valores humanos mais profundos e duradouros.

Método

Esta pesquisa utiliza uma metodologia mista, que combina a leitura sintópica (comparativa) das obras escolhidas com uma fase de suporte quantitativo fundamentada na análise lexical. O objetivo metodológico foi analisar e comparar a progressão de características pessoais e psicológicas do detetive Philip Marlowe ao longo de quatro romances publicados entre 1939 e 1953: O Sono Eterno (1939), A Dama do Lago (1943), A Irmãzinha (1949) e O Longo Adeus (1953).

Definição do corpus e unidade de análise

O corpus foi restrito aos quatro romances mencionados. O texto de cada romance é considerado a unidade de análise, tratado como um bloco contínuo para possibilitar a comparação longitudinal entre as obras. A escolha do período para análise foi feita com a finalidade de documentar as transformações do personagem ao longo de aproximadamente quinze anos. Essa decisão visou não apenas preservar a coerência estilística e de gênero, que se caracteriza pelos elementos do noir e do hardboiled, mas também permitir uma investigação aprofundada sobre as mudanças nas ênfases tanto narrativas quanto psicológicas. Assim, ao longo dessa jornada temporal, conseguimos observar como as nuances da narrativa e os aspectos internos do personagem se alteraram e se desenvolveram, proporcionando uma compreensão mais rica e detalhada de sua evolução. Ao mesmo tempo, o texto introdutório sobre a leitura sintópica foi utilizado como uma fonte essencial de referência interpretativa, particularmente na modalidade de leitura comparativa. O principal objetivo dessa abordagem foi orientar a escolha das características a serem discutidas e, de forma mais importante, organizar a análise qualitativa que se pretende realizar. Desse modo, o texto introdutório (com as suas referências) desempenhou um papel essencial ao auxiliar na definição das diretrizes que orientaram o estudo atual. Essa definição é fundamental para que o projeto de pesquisa siga um caminho claro e conciso, possibilitando que os objetivos e metas sejam estabelecidos de maneira eficaz. Portanto, a contribuição do texto é significativa no contexto do desenvolvimento desse estudo. Além disso, é importante destacar que a análise quantitativa não tem a função de substituir a leitura crítica e atenta dos textos, mas sim atua como uma ferramenta que possibilita a triangulação de dados. Assim, essa análise quantitativa é valiosa para destacar tendências e focos que podem ser percebidos ao longo do tempo, contribuindo de forma significativa para uma compreensão mais aprofundada dos fenômenos em estudo.

Este artigo foi elaborado com o propósito de unir e mesclar as observações qualitativas realizadas com os dados quantitativos extraídos dos romances em análise, oferecendo uma avaliação mais completa e fundamentada.

Obtenção e formatação dos textos

A partir dos arquivos digitais disponíveis, os textos das obras foram transformados em um formato que pode ser processado por computador. Posteriormente, foi realizada uma padronização básica: a concatenação do conteúdo em uma única sequência textual por livro, a conversão para caixa baixa e a preservação do texto como fluxo contínuo. Não se buscou lematização completa nem marcação linguística avançada, uma vez que o objetivo era comparar internamente as obras que passaram pelo mesmo procedimento.

Descrição operacional das características

Os traços psicológicos e comportamentais examinados foram estabelecidos operacionalmente por meio de categorias temáticas ligadas à caracterização constante de Philip Marlowe na tradição crítica e na leitura sintópica das obras. Para quantificar as categorias em termos lexicais, cada característica foi representada por um conjunto de palavras-chave (radicais e termos) em português, a fim de registrar ocorrências associadas no texto.

As categorias utilizadas foram:

    • cinismo_ironia: palavras ligadas à ironia, sarcasmo e tom mordaz

    • moralidade_código: palavras ligadas à ética, honestidade, valores e equidade

    • violência_dureza: palavras associadas a conflitos, armas, agressão e rigidez física

    • álcool_solitário: palavras relacionadas a bebida e solidão/isolamento

    • sentimentalismo: palavras associadas à melancolia, empatia, ternura e nostalgia

    • misoginia_relações: expressões associadas a mulheres, sedução e relacionamentos (abrangendo possíveis indícios de tratamento objetificante)

    • lucidez_observação: palavras relacionadas à observação, percepção, inteligência e dedução

    • desencanto_social: palavras associadas à corrupção, declínio e ceticismo social

Esses aspectos foram selecionados por representarem dimensões constantes de Marlowe: sua voz narrativa (cinismo/ironia), sua ética (código moral), sua inserção em um mundo hostil (violência/dureza), seus mecanismos de enfrentamento e isolamento (álcool/solidão), sua dimensão afetiva (sentimentalismo), seu regime de relação com figuras femininas (misoginia/relações), sua competência perceptiva (lucidez/observação) e sua interpretação do ambiente urbano (desencanto social).

Mensuração: contagem de palavras e normalização

Para cada uma das obras analisadas, foi efetuado um cálculo que resultou em um escore correspondente a cada traço, levando em consideração a frequência das ocorrências das palavras-chave que estão associadas a esse traço específico, utilizando como base o texto completo do livro em questão. A análise foi conduzida por meio da utilização do software Python, especificamente na versão 3.12.3. Para esse processo, foram empregadas bibliotecas como a pandas, que são amplamente utilizadas para a manipulação de dados, além de auxiliar na contagem de frequências de maneira eficiente e prática. Essa combinação de ferramentas permite uma análise mais precisa e detalhada dos dados em questão. Essa seleção ocorreu em razão da versatilidade que a linguagem de programação Python oferece na manipulação de textos, além de sua habilidade notável em automatizar contagens lexicais, o que se revela fundamental para o tratamento de grandes volumes de dados textuais. Ademais, Python destaca-se pela possibilidade de integrar diferentes tipos de normalizações estatísticas, o que favorece uma análise que é não apenas eficiente, mas também facilmente reproduzível, dispensando a utilização de ferramentas proprietárias que costumam ser complexas e de difícil acesso. Dessa maneira, essa escolha se justifica plenamente, considerando as vantagens significativas que a linguagem proporciona para tais tarefas.

Como os romances variam em extensão, as contagens foram ajustadas de acordo com o tamanho do texto, usando o número total de caracteres como base. A taxa por 10 mil caracteres expressou o escore final:

score_{t,obra} = \frac{ocorrências de keywords do traço t na obra}{número de caracteres da obra} \times 10000.

Essa normalização por caracteres foi implementada em razão das diferenças no tamanho dos livros (por exemplo, O Longo Adeus é mais longo que O Sono Eterno). A utilização de caracteres como métrica permite uma comparação equitativa e proporcional das frequências, prevenindo viés em obras de maior extensão. Ademais, optou-se por caracteres em vez de palavras ou frases, uma vez que eles representam melhor a densidade textual sem necessitar de segmentações linguísticas variáveis, assegurando precisão na taxa de ocorrência relativa.

Análise comparativa longitudinal e visualização

A análise comparativa das obras foi feita em dois níveis: inicialmente, os escores normalizados (por 10 mil caracteres) foram empregados para identificar variações absolutas por traço ao longo do tempo.  Em segundo lugar, a fim de visualizar a trajetória (ênfase relativa de cada traço ao longo das quatro obras), foi realizada uma normalização min-max por traço, transformando os valores em uma escala de 0 a 1 em cada categoria. Dessa forma, para cada característica, o menor valor observado entre as quatro obras foi mapeado para 0.0 e o maior para 1.0, com os demais valores distribuídos proporcionalmente:
intensidade_relativa_{t,obra} = \frac{score_{t,obra} – \min(score_{t,})}{\max(score_{t,}) – \min(score_{t,*})}

Essa transformação não sugere uma “importância absoluta” entre traços distintos; seu único propósito é destacar as tendências de aumento e diminuição ao longo do tempo dentro de um mesmo traço.  As tendências foram exibidas por meio de gráficos de linha (trajetória temporal).

Cálculo da Intensidade Relativa por Traço

O gráfico de linhas apresenta a intensidade relativa por traço (0.0 a 1.0), calculada em duas fases.

1) Primeiramente, calcula-se um escore bruto do traço em cada obra.

Para cada atributo (por exemplo, álcool_solitário), conta-se a frequência com que as raízes/palavras-chave associadas a ele aparecem no texto (como uísque, whisky, bebida, álcool, garrafa, bar, solitário, sozinho).

Em seguida, para permitir a comparação entre obras de tamanhos distintos, normaliza-se pelo tamanho do texto.

O escore bruto é:

Ou seja, vira uma taxa de “ocorrências por 10 mil caracteres”.

2) Em seguida, converte-se cada característica em uma escala de 0 a 1 (min-max) ao longo das quatro obras.

Para cada característica individualmente, aplica-se a normalização min-max aos quatro valores brutos (um para cada obra):

A obra com menor valor daquele traço vira 0.0

A obra com maior valor daquele traço vira 1.0

As outras ficam proporcionalmente entre 0 e 1

Caso especial

Para evitar a divisão por zero, quando um traço apresenta o mesmo valor em todas as obras (ou seja, max minus min equals 0), a intensidade relativa é definida como 0.0 em todas elas.

Exemplo rápido (com números fictícios):

Suponha que álcool_solitário tenha escores brutos:

1939: 4.2

1943: 5.4

1949: 4.7

1953: 8.4

Então ; . Para 1943:

O eixo Y do gráfico de linhas recebe precisamente esse valor (variando de 0 a 1).

Método de interpretação sintópica

Os resultados numéricos foram analisados em conjunto com a leitura sintópica apresentada no artigo. Na prática, o gráfico serviu como um guia para:

    • Identificar características de manutenção relativamente estáveis.

    • Identificar picos e quedas que indicam uma alteração no foco da caracterização do protagonista.

    • Estruturar a análise comparativa por obra, enfatizando como um mesmo personagem se transforma de acordo com o contexto narrativo e período de publicação.

A interpretação final deu prioridade à coerência literária e contextual, considerando o dado lexical como uma evidência auxiliar (não determinística).

Limitações

A aplicação de palavras-chave para operacionalizar análises possui várias limitações que devem ser consideradas cuidadosamente. Primeiramente, é importante notar que nem todas as dimensões psicológicas de um personagem ou situação são necessariamente expressas de forma lexical, ou seja, por meio de palavras. Além disso, pode ocorrer que determinados termos ou expressões surjam em um contexto que não corresponda diretamente ao personagem em questão, o que pode levar a interpretações inadequadas ou errôneas. Outro ponto relevante é que as traduções e as diferentes opções linguísticas que são utilizadas podem influenciar significativamente a frequência com que certas palavras aparecem nos textos, tornando-as menos confiáveis. Por último, é preciso destacar que elementos como ironia e subtexto, que muitas vezes agregam profundidade e nuance às falas ou comportamentos dos personagens, podem não ser captados adequadamente por meio de uma simples contagem de palavras, o que pode resultar em um entendimento superficial e limitado da obra analisada. Assim, deve-se compreender que os escores representam mais um indicativo de ênfase dentro do texto, ao invés de serem considerados uma avaliação completa da psicologia do personagem em questão. Essa interpretação sugere que a função dos escores se limita a destacar elementos textuais, sem a pretensão de fornecer um panorama detalhado e amplo sobre como se dá a constituição psicológica do personagem envolvido. Para assegurar a validação e a adequada contextualização dos padrões que foram observados, é de suma importância proceder com uma leitura sintópica qualitativa. Essa abordagem permite uma análise mais rica e aprofundada das informações, possibilitando que se compreendam melhor as nuances e as interconexões entre os diversos elementos em questão.

Resultados

Análise sintópica da evolução dos traços (1939-1953)

O gráfico de linhas (Gráfico 01) apresenta a evolução comparativa de oito traços identificados ao longo de quatro períodos distintos. Como os valores estão normalizados (0-1) por traço, o objetivo não é “qual traço é maior em termos absolutos”, mas sim como cada traço evolui ao longo do tempo: se sobe, desce, se mantém ou se reorganiza. Essa abordagem é especialmente vantajosa para a prática da leitura sintópica, uma vez que permite observar o personagem principal como um todo composto por diversas tensões que, em determinados momentos, se tornam mais intensas, enquanto em outros, encontram um estado de equilíbrio. Dessa forma, a dinâmica do protagonista se revela em sua complexidade, alternando entre momentos de alta tensão e períodos de calmaria.

Traços Verificados e Avaliados

Cinismo, ironia

Em 1939, cinismo e ironia atingem o nível mais elevado em relação ao próprio traço, o que se alinha com a introdução de Marlowe como um narrador perspicaz e ágil, pronto para simplificar o mundo em ironias e respostas rápidas. Trata-se do cinismo como estratégia de sobrevivência e estilo, uma espécie de “armadura verbal” que o habilita a transitar pelo ambiente urbano sem se contaminar totalmente.

Entre 1939 e 1943, observa-se uma queda significativa, indicando um período em que o cinismo deixa de ser o principal motor da representação do personagem. Ele ainda existe, mas perde a centralidade: Marlowe não abandona a ironia, apenas não a utiliza como primeira lente com tanta frequência. Em 1949, o traço alcança seu ponto mais baixo: essa inflexão é significativa, pois indica que, quando o personagem está mais pressionado (ou exausto), a ironia pode dar lugar a uma vivência mais direta do desgaste. Em 1953, há um retorno marcante, quase como um rearmar da persona: não se trata necessariamente do mesmo cinismo leve e performático do início, mas de um cinismo reativado, agora com um contexto de experiência acumulada. A ironia vai além de meramente ser uma demonstração de astúcia e se estabelece como um tipo de observação mordaz feita por uma pessoa que, após ter presenciado uma quantidade significativa de eventos e situações diversas, já adquiriu uma perspectiva que não nutre esperanças elevadas em relação ao que o futuro pode trazer.

Moralidade_codigo

O traço moralidade_codigo permanece bastante elevado em 1939 e 1943, sugerindo que Marlowe é guiado por um forte senso de regras desde o começo. Esse código não representa a moral pública ou a moral institucional, mas sim uma ética pessoal: uma espécie de “limite que ele não ultrapassa”, mesmo quando o mundo ao seu redor recorre a atalhos. A proximidade entre 1939 e 1943 indica a preservação do núcleo: Marlowe pode transitar por ambientes imorais, negociar com personagens ambíguos e enfrentar ameaças constantes, porém ainda é definido por princípios que servem como eixo de coerência.

No entanto, em 1949, há uma queda repentina: parece que o texto oferece menos espaço para a explicitação desse código ou que o próprio personagem tem menos vigor para mantê-lo como discurso. Sintopicamente, essa queda pode ser interpretada de duas formas que não se excluem: primeiro, o código pode se tornar mais silencioso e menos explícito, manifestando-se mais por meio de ações do que por formulações; segundo, pode ocorrer um deslocamento em que o mundo narrativo impõe a Marlowe uma postura mais reativa, na qual a moral é apresentada como um esforço, e não como uma base sólida. Em 1953, o traço retorna ao nível mais elevado: isso indica uma “reconsolidação” do eixo moral, porém com a nuance de que esse retorno pode ser mais consciente e mais doloroso. Não se trata de um código ingênuo; é um código que se reafirma em um mundo que proporciona cada vez menos razões para sua existência.

Violência_dureza

A curva de violência_dureza aumenta de 1939 a 1943, alcançando um pico em 1949. Em 1953, há uma leve redução, mas não retorna ao ponto inicial. Em termos de leitura de personagem, isso indica que a “dureza” não é apenas uma característica estática do detetive noir, mas um elemento que se intensifica à medida que as circunstâncias narrativas se desenvolvem e o desgaste se acumula. Em 1939, a dureza é tanto uma condição do ofício quanto uma exigência para a sobrevivência. Em 1943, ela se torna mais proeminente, sugerindo um Marlowe mais suscetível a conflitos, hostilidades ou contextos em que a violência é uma linguagem comum.

O auge em 1949 é indicativo: a dureza/rigidez aparenta ser não apenas uma reação ao perigo, mas também uma forma de operar, como se o corpo e a conduta do personagem estivessem constantemente chamados a agir, resistir e suportar. A pequena diminuição registrada no ano de 1953 pode indicar uma possível alteração na ênfase das questões analisadas: embora a violência não se extinga completamente, ela passa a dividir espaço e atenção com outros fatores que ganham relevância, como as questões emocionais e a sensação de isolamento que as pessoas vivenciam. Esse cenário sugere uma diversificação nos tópicos de preocupação, destacando a importância de compreender não apenas a violência em si, mas também como ela se relaciona com estatutos emocionais e sociais mais amplos. Sintopicamente, podemos observar que, após atingir um clímax de extrema brutalidade, o personagem passa a ser retratado de maneira menos focada nas consequências externas das suas ações e mais na sua deterioração interna, nas suas lutas emocionais e nos efeitos psicológicos que essa brutalidade exerce sobre ele. Essa mudança na forma de caracterização evidencia um aprofundamento no entendimento do que o personagem realmente enfrenta em sua essência, mostrando como o impacto emocional e as consequências de suas ações violentas afetam seu estado interior e sua saúde mental.

Álcool solitário

O traço Álcool solitário apresenta uma trajetória que contribui para perceber a passagem do tempo no corpo do personagem. O traço inicia de forma relativamente baixa (em seu próprio espectro) em 1939, aumenta em 1943, oscila em 1949 e atinge o ponto máximo em 1953. Esta ilustração possui uma expressividade marcante, pois sugere que tanto o álcool quanto a solidão, que são frequentemente abordados como clichês no contexto de certos ambientes sociais, se metamorfoseiam em uma maneira de existir. Essa representação visual aponta para a ideia de que essas duas condições não são apenas presentes, mas também se tornam uma forma de encarar a vida cotidiana.

No ano de 1939, tanto a solidão quanto o consumo excessivo de álcool podem se apresentar como aspectos característicos do estilo noir, funcionando como fatores que contribuem para a construção do ambiente. Esses elementos são essenciais para intensificar e reforçar a figura do detetive independente, que é tipicamente envolto em um cenário de mistério e complexidade. Em 1943, à medida que Marlowe se desenvolve, essa particularidade revela um aspecto dele que se torna progressivamente mais reservado. Ele se habitua a se afastar para o seu espaço pessoal e a usar bebidas alcoólicas como um meio de se distanciar dos demais e enfrentar suas próprias dificuldades. Em 1949, a leve diminuição não quer dizer necessariamente que houve uma melhora; pode ser um indicativo de que a trama está mais voltada para ações e conflitos, com o álcool recebendo menos destaque. No entanto, o avanço que ocorreu em 1953 se configura como uma forma de conclusão sintópica, na qual o isolamento não é mais somente encarado como uma atitude vinculada à profissão, mas se transforma em uma verdadeira condição da existência do indivíduo. De maneira contrária, o álcool exerce funções que podem ser compreendidas sob diferentes aspectos, como um agente anestésico, um elemento presente em certos rituais e como um indicativo de determinados sintomas. O personagem principal prossegue em sua jornada; no entanto, o preço que deve pagar para continuar presente nessa situação torna-se cada vez mais claro e perceptível.

Sentimentalismo

O movimento de sentimentalismo alcança seu ponto mais elevado no ano de 1939, mas, em 1943, passa por uma diminuição significativa em sua intensidade. Posteriormente, em 1949, há uma leve melhora que sugere uma recuperação em relação ao que foi observado anteriormente. No entanto, em 1953, ocorre uma nova queda nesse movimento, indicando que, apesar da recuperação anterior, a linha de sentimentalismo voltou a sofrer uma redução considerável. Dentro desse contexto, é de extrema importância compreender o conceito de “sentimentalismo” não apenas como uma romantização que se mostra superficial, mas sim como um sinalizador de vulnerabilidade, que implica ao mesmo tempo em empatia e na capacidade de ser impactado por emoções, ou, ao menos, de ser capaz de reconhecer tanto as perdas que enfrentamos quanto os laços afetivos que nos conectam a outras pessoas.

Em 1939, o elevado sentimentalismo pode parecer paradoxal em relação ao cinismo; porém, essa contradição é característica do personagem: a ironia resguarda, mas a sensibilidade persiste. Marlowe pode fazer piada, mas não é desinteressado. Em 1943, observa-se uma queda acentuada: isso indica um endurecimento emocional, como se o texto priorizasse menos a expressão emocional e mais a eficácia do detetive no mundo. Em 1949, há um leve retorno: o sentimentalismo aparece como um resíduo, possivelmente como uma fissura na armadura. Em 1953, a queda ao mínimo relativo sugere um Marlowe que aparenta ser menos “sentimental” no sentido lexical do termo. Isso pode ser interpretado como uma secura emocional ou uma maturidade amarga, na qual a emoção se manifesta não como ternura, mas como lealdade silenciosa, cansaço e resignação. De maneira sintópica, o sentimentalismo, ao que tudo indica, não chega a desaparecer por completo; em vez disso, ele passa por um processo de transformação. Essa transformação faz com que o sentimentalismo se torne menos perceptível e, ao mesmo tempo, mais oculto ou latente, como se estivesse operando em um nível mais profundo e discreto.

Misoginia e relações

O traço denominado Misoginia_relações demonstra um aumento considerável em sua representação durante o ano de 1943, alcançando um nível elevado que merece destaque. Em seguida, observamos que, no ano de 1949, esse traço atinge seu ponto mais baixo de representação, indicando uma queda significativa na sua incidência. Posteriormente, ocorre um ressurgimento parcial desse traço no ano de 1953, sugerindo uma certa retomada nas ocorrências relacionadas ao tema. Esse tipo de comportamento demonstra que a forma como as relações com as mulheres é abordada, assim como o modo como o narrador as descreve, analisa ou classifica, não segue um padrão uniforme. De fato, há uma variação considerável e perceptível, dependendo da estrutura narrativa utilizada e dos diversos tipos de personagens femininas apresentadas em cada obra literária. Essa variedade na representação feminina é refletida na própria narrativa, afetando como suas histórias e traços são formados e interpretados pelo leitor.

Em 1939, o traço se apresenta de forma intermediária: é o bastante para evidenciar a presença do repertório noir, que inclui suspeita, sedução, ambivalência e julgamento moral, porém sem ser predominante. Em 1943, o auge pode sugerir que o livro dá mais ênfase à interação de Marlowe com personagens femininas e aos códigos de gênero característicos do noir: fascínio, desconfiança, observações sobre aparência, comportamento, “perigo” ou “encenação”. No ano de 1949, o traço em questão chega ao seu nível mínimo, o que pode sugerir uma possível diminuição na centralidade das interações e relações com o universo feminino. Além disso, essa situação pode indicar que o foco dos conflitos principais se desloca para outras questões, o que, por consequência, resulta em uma diminuição na quantidade de conteúdo disponível para esse tipo específico de formulação ou discussão. O retorno que ocorreu parcialmente no ano de 1953 indica uma nova abordagem ao tema em questão, sugerindo que ele não se restringe apenas a uma réplica do seu auge anterior. Em vez disso, essa reintrodução propõe um reposicionamento do tema como um componente importante do repertório narrativo do personagem principal, que neste momento já apresenta uma idade mais avançada e uma condição de solidão. Essa mudança ressalta a evolução do protagonista e a maneira como suas experiências e a passagem do tempo influenciam sua narrativa.

Lucidez_observação

A lucidez_observação, que diz respeito à habilidade de perceber e entender a realidade ao nosso redor de maneira clara e consciente, mostra uma trajetória interessante ao longo dos anos. Esse fenômeno começou a declinar em 1943, apresentando uma redução considerável na clareza da percepção dos acontecimentos. Posteriormente, em 1949, essa habilidade atingiu seu auge, refletindo um período de intensa clareza e percepção. No entanto, esse cenário positivo não perdurou por muito tempo, já que, em 1953, ocorreu uma queda significativa, resultando em uma drástica diminuição na lucidez observacional. Essa curva tem um aspecto curioso, pois, geralmente, espera-se que a “lucidez” de uma pessoa cresça com o passar do tempo. Entretanto, no cenário particular que está sendo analisado neste momento, essa transparência parece variar de forma surpreendente, quase como se estivesse intimamente conectada ao grau de domínio que Marlowe apresenta sobre o jogo narrativo em cada fase da história que se desenrola. Essa dinâmica revela que as habilidades de entendimento e a clareza de pensamento de Marlowe não se desenvolvem em uma linha reta, mas sim de maneira complexa, sendo influenciadas pelas diversas circunstâncias que ele enfrenta e pelos diferentes domínios ou áreas de conhecimento que ele vem estabelecendo ao longo do desenrolar da narrativa. Essa interação entre os fatores contextuais e suas habilidades contribui para uma evolução que não é previsível, mas que se adapta e muda conforme os eventos da história se desenrolam.

Em 1939, essa característica já é significativa: Marlowe se mostra como um observador habilidoso, capaz de interpretar o ambiente, captar detalhes e fazer inferências. Em 1943, há uma diminuição: isso pode indicar um contexto mais complexo e intrincado, ou um texto que prioriza menos os marcadores de dedução explícita. Em 1949, o auge representa um instante de máxima “nitidez” do olhar: Marlowe se mostra particularmente perspicaz, com uma percepção aguçada, quase como se a narrativa o necessitasse como um instrumento cognitivo central. Esse aspecto pode ser interpretado como o clímax do detetive como uma máquina de interpretação.

Em 1953, a queda ao mínimo relativo pode ser interpretada sintopicamente como uma mudança no personagem: não é que ele se torne “néscio”, mas que a narrativa pode deslocar o foco da dedução para o desgaste, dilemas morais, relacionamentos e perdas. A lucidez entendida como “controle” cede espaço à lucidez vista como “consciência do fracasso” ou “percepção do limite”, que pode não se manifestar com as mesmas características lexicais do traço. Esse movimento, em termos de arco, contribui para sustentar a leitura de um Marlowe que deixa o auge técnico e passa para uma etapa mais existencial.

Desencanto social

Finalmente, desencanto_social tem início no máximo em 1939, atinge o mínimo em 1943 e, a partir de então, apresenta um aumento gradual nos anos de 1949 e 1953. Esse desenho é quase um arco de mundo: em 1939, o desencanto é fundamental, formando a visão inicial de Los Angeles (ou do tecido social) como um local de hipocrisia, corrupção, fachada e decadência moral. Marlowe nasce, por assim dizer, em um contexto em que a degradação social é clara, e ele é um indivíduo que percebe isso.

A diminuição em 1943 pode sugerir uma obra na qual o desencanto se manifesta menos em considerações gerais sobre a sociedade e mais em microconflitos específicos, ou que desloca o foco para o mistério e seus mecanismos, diminuindo o “comentário social” explícito. A partir de 1949, especialmente em 1953, o desencanto começa a aumentar: nesse momento, ele se apresenta menos como um slogan e mais como uma sedimentação. O Marlowe de 1953 retoma sua visão pessimista da sociedade, porém agora com a autoridade de alguém que acumulou experiências e confirmações. É uma desilusão que se aprende, se confirma e se transforma em segunda natureza.

Síntese: o que permanece e o que se transforma em “Marlowe ao longo de uma década e meia”

A dinâmica em três camadas é sugerida pelo desenho global.

A primeira camada é a da manutenção estrutural: apesar das oscilações, Marlowe se mantém ligado a um eixo de moralidade_codigo (que oscila entre queda e retorno) e a um mundo onde a violência e dureza são constantes. Ele ainda é o tipo de protagonista que atravessa a sujeira sem se misturar completamente a ela, mantendo o corpo e a determinação em ambientes hostis.

A camada que se segue é aquela dedicada à reconfiguração do estilo, onde o cinismo e a ironia iniciam em um nível elevado, após o qual há uma diminuição de intensidade, atingindo um ponto mais baixo, que pode ser entendido como um vale, antes de retomar novamente a força anteriormente exibida. Esse fato nos leva a concluir que a voz do personagem Marlowe não deve ser considerada como um elemento fixo ou imutável; ao contrário, ela apresenta uma capacidade de adaptação que se altera conforme a passagem do tempo, refletindo assim um dinamismo em sua forma de se comunicar. No início, a ironia pode se manifestar de maneira sutil e até mesmo performática, trazendo uma certa leveza à situação. No entanto, à medida que a gravidade dos acontecimentos se torna mais intensa e se aprofunda, essa ironia tende a desaparecer, dando lugar a um sentimento mais sério. Posteriormente, esse mesmo sentimento de ironia pode ressurgir, mas dessa vez se apresentando na forma de uma amargura que já é fruto de uma experiência mais madura e refletida.

A camada que se refere à corrosão existencial é a terceira, e, para ilustrar essa ideia, o Gráfico 01, que se encontra logo abaixo, revela informações bastante significativas. Nesse gráfico, podemos observar que o termo “alcool_solitario” apresenta um aumento progressivo, alcançando seu ponto máximo no final do período analisado. Por outro lado, o “sentimentalismo” apresenta uma tendência de diminuição, enquanto “lucidez_observacao” demonstra uma perda de relevância em relação ao seu impacto a partir do ano de 1953.

De maneira concisa e objetiva, podemos afirmar que essa interpretação possui grande importância: Marlowe não se limita a ser apenas um detetive que trabalha na resolução de crimes em série, mas, acima de tudo, ele se caracteriza por ser um indivíduo que valoriza a coerência em suas ações e pensamentos. Em uma sociedade que, infelizmente, não reconhece e não valoriza a importância da clareza de pensamento, assim como a relevância de um conjunto de normas ou códigos, o resultado disso se revela em um aumento significativo do isolamento social. Essa realidade evidencia como é desafiador manter uma conexão verdadeira com os outros quando aspectos fundamentais como a perceptibilidade e a legislação não são apreciados. Consequentemente, esse desprezo contribui para que as pessoas se sintam cada vez mais solitárias e afastadas umas das outras. O desfecho do arco narrativo não representa apenas a conquista do herói, mas sim a persistência e a resiliência do ser humano — um homem que, ao final de sua jornada, se encontra não apenas mais solitário, mas também mais exausto e, possivelmente, mais atento ao verdadeiro significado de prosseguir em sua trajetória mesmo na ausência de fé. Essa reflexão profunda se revela como uma parte fundamental da experiência humana, destacando o peso emocional e a complexidade do ato de continuar vivendo diante das adversidades.

Gráfico 01. Traços analisados em Marlowe ao longo de 04 livros escritos por R. Chandler

Discussão/Conclusão

A análise sintópica das diferentes obras do autor Raymond Chandler revela o personagem Philip Marlowe, que se destaca tanto como um exemplar típico do detetive “hard-boiled”, que se encontra profundamente inserido nas características do gênero noir, quanto como um reflexo complexo das particularidades da sociedade americana durante a metade do século XX. Essa complexidade do personagem permite uma interpretação que vai além de sua figura como investigador, mostrando como ele também representa questões sociais e culturais da época, transformando-se, assim, em um símbolo significativo do contexto histórico em que está inserido. Esse contexto é uma manifestação das diversas tensões que emergiram após o período da Grande Depressão, bem como das guerras que se seguiram, tensões essas que influenciaram de maneira significativa a estrutura social e psicológica dos indivíduos. Essas vivências coletivas impactaram significativamente a forma como as pessoas se relacionam e enxergam o mundo ao seu redor. Marlowe representa uma dualidade fundamental: uma firmeza inabalável em seus princípios morais, que o estabelece como um ícone de integridade em meio à corrupção generalizada, contrapõe-se a uma profundidade emocional volúvel, caracterizada por uma transição de vigor inicial para uma melancolia progressiva. Essa mudança, vista de O Sono Eterno (1939) a O Longo Adeus (1953), é afetada por conflitos mundiais e transformações socioculturais, como as abordadas em estudos sobre a cultura pós-guerra, em que o existencialismo e o cinismo surgem como reações à desilusão coletiva (Sun, 2023).

Chandler emprega Marlowe para criticar a deterioração moral da sociedade, enfatizando sua batalha contra a desonestidade em histórias repletas de traições, nas quais o protagonista se mantém como um bastião de integridade, mesmo em contextos corrosivos.

Essa análise sintópica adquire uma importância especial no âmbito do estudo em Personalidade, ao evidenciar como a literatura noir pode funcionar como uma lente para investigar características psicológicas que vão além da ficção e se manifestam no comportamento humano. Características típicas de personagens noir, como cinismo e ironia (que em Marlowe variam entre uma leveza performática e uma amargura madura), isolamento social, um código moral reto e inflexível, solidão profunda e problemas em relacionamentos íntimos, não são apenas convenções literárias, mas espelhos de padrões comportamentais observáveis. Convidando a uma análise interdisciplinar, esses elementos são comumente ligados ao gênero noir. Na literatura, eles dão forma a histórias de detetives solitários que transitam por mundos corruptos, como exemplificado em obras clássicas como In a Lonely Place de Dorothy Hughes. Nesse cenário, a negatividade e a misoginia intrínsecas ao noir fazem críticas à privatização e à alienação social (Breu, 2009). Na realidade, essas características podem ser observadas em pessoas que, sem um diagnóstico patológico específico — como um suposto “Transtorno Noir de Personalidade” —, apresentam padrões semelhantes, influenciados por situações de estresse social ou trauma coletivo. O objetivo aqui não é patologizar esses traços, mas evidenciar como a literatura reflete aspectos da personalidade humana, possivelmente relacionados a sintomas depressivos, abuso de substâncias (como o consumo solitário de álcool por Marlowe, que aumenta gradualmente) e uma corrosão existencial, conforme demonstrado no Gráfico 01.

Pesquisas na área da psicologia criminal e personalidade, incluindo a utilização do modelo PEN de Hans Eysenck (Psicoticismo, Extroversão e Neuroticismo) no Nordic Noir, indicam que características como elevados escores em neuroticismo e baixos escores em extroversão podem levar a comportamentos isolados e impulsivos, semelhantes aos retratados em personagens noir (Satsangi, 2023).

De maneira semelhante, abordagens psicanalíticas baseadas em Bachelard investigam a “matière noire” — a escuridão simbólica — como um complexo psicológico que atravessa histórias de noite e solidão, ligando o noir literário às dimensões inconscientes da mente (Bontemps, n.d.).

Dessa forma, essa pesquisa sintópica não apenas enriquece a crítica literária ao traçar a trajetória de Marlowe como reflexo de uma época de crises, mas também contribui para o campo da Personalidade ao fomentar uma compreensão empática dos traços “noir” na sociedade atual. Ao analisar esses padrões na literatura e entre as pessoas ao nosso redor, sem estigmatização, promovemos conversas sobre resiliência emocional, a relevância de redes de apoio e ações preventivas para problemas como depressão e dependência.

Ao final dessa longa jornada, o personagem Marlowe representa, de maneira marcante, não apenas a perseverança típica de um herói, mas também a intricada realidade da existência humana. Ele se revela como um indivíduo exausto, mas que, apesar do seu cansaço, permanece atento e alerta. Esse contraste em sua condição leva-nos a refletir sobre as nossas próprias sombras e questões internas, levando em consideração como, em um mundo que continua a enfrentar problemas como desigualdades e solidão, cada um de nós é desafiado a seguir em frente, mesmo sem a crença plena em um futuro melhor.

Referências

Adler, M. J. (1940). How to read a book. Simon & Schuster.

Adler, M. J., & Van Doren, C. (1972). How to read a book: The classic guide to intelligent reading (Revised ed.). Simon & Schuster.

Bontemps, V. (n.d.). Bachelard et la psychanalyse de la “matière noire”. [Publisher information unavailable].

Breu, C. (2009). Radical noir: Negativity, misogyny, and the critique of privatization in Dorothy Hughes's In a lonely place. MFS Modern Fiction Studies, 55(2), 199–215. https://doi.org/10.1353/mfs.0.1607

Chandler, R. (1939). The big sleep. Alfred A. Knopf.

Chandler, R. (1943). The lady in the lake. Alfred A. Knopf.

Chandler, R. (1949). The little sister. Hamish Hamilton.

Chandler, R. (1953). The long goodbye. Hamish Hamilton.

Hiney, T. (1997). Raymond Chandler: A biography. Grove Press.

MacShane, F. (1976). The life of Raymond Chandler. E. P. Dutton.

Satsangi, S. (2023). Application of personality theory of criminal psychology to Nordic Noir: A study. International Journal of English Literature and Social Sciences, 8(4), 186-196. https://doi.org/10.22161/ijels.84.30

Sun, L. (2023). An analysis of the influence of post-war culture on The Maltese Falcon through the femme fatale character of Bridget. In Proceedings of the International Conference on Social Psychology and Humanity Studies. 6, 25-47. https://doi.org/10.54254/2753-7064/6/20230043

Wikipedia contributors. (2026). Philip Marlowe. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved February 19, 2026, from https://en.wikipedia.org/wiki/Philip_Marlowe

 

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