Será que você é viciado em sexo? Essas 7 perguntas o ajudarão a descobrir

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Popularmente chamado de vício em sexo, o transtorno do comportamento sexual compulsivo é considerado um distúrbio de saúde mental. Pessoas que sofrem com o problema dedicam tanto tempo às atividades sexuais que acabam negligenciando a própria saúde, os cuidados pessoais, responsabilidades e outros interesses. O sexo deixa de ser algo saudável e prazeroso para virar uma fonte de sofrimento.

O transtorno é definido pela nova versão da Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, da OMS (Organização Mundial de Saúde), como “um padrão persistente de falha em controlar impulsos ou impulsos sexuais intensos e repetitivos, resultando em comportamento sexual repetitivo”.

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Isso pode ser expresso pelo sexo com outras pessoas, mas também pela masturbação, consumo de pornografia, sexo cibernético (sexo na internet), sexo por telefone, entre outros.

Não existem estimativas oficiais acerca de quantas pessoas no mundo convivem com a condição. Mas, de acordo com a OMS, os homens são mais propensos a serem diagnosticados com o distúrbio. A doença tem sido associada a altas taxas de traumas na infância, incluindo abuso sexual, principalmente entre as mulheres.

Como saber se posso ter?

A partir de informações da CID-11 e com a ajuda de psiquiatras e psicólogos especializados em transtornos sexuais, VivaBem listou perguntas que você pode fazer a si mesmo para identificar sinais do transtorno do comportamento sexual compulsivo.

Segundo os especialistas, quem suspeita ter o distúrbio deve procurar a ajuda de um profissional especializado na área, que irá fazer o diagnóstico e direcionar o tratamento para a doença —prescrição de medicamentos que permitem ao paciente controlar seus impulsos, além de sessões de psicoterapia (veja, ao final da reportagem, indicações de onde receber atendimento gratuito).

1. Você consegue postergar seu desejo sexual ou precisa saciá-lo imediatamente?

“A maioria de nós, quando está com vontade de fazer sexo, consegue esperar. Pensamos em outra coisa e continuamos nossas atividades. Mas, em geral, indivíduos com o transtorno não têm essa prerrogativa. O desejo ou a fantasia sexual preponderam sobre qualquer outro tipo de preocupação, inclusive familiar e profissional”, diz o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do ABSex (Ambulatório de Transtornos da Sexualidade), da Faculdade de Medicina do ABC.

“A pessoa pode acabar entrando no banheiro do trabalho para se masturbar, por exemplo”, diz ele, que dedicou os últimos 23 anos de carreira a atender pacientes com transtornos sexuais, incluindo o transtorno do comportamento sexual compulsivo.

Segundo a OMS, o diagnóstico de transtorno do comportamento sexual compulsivo só é apropriado “quando o indivíduo experimenta impulsos sexuais intensos e repetitivos, que são experimentados como irresistíveis ou incontroláveis, levando a comportamento sexual repetitivo”.

Pessoas com libido alta, mas que não apresentam falta de controle sobre seu comportamento sexual ou sofrimento significativo, não devem ser diagnosticadas com o distúrbio.

2. O sexo tem causado prejuízos sociais, financeiros ou profissionais?

Ao contrário do que se pode imaginar, o critério para diagnosticar o transtorno do comportamento sexual compulsivo não é a quantidade de vezes por dia que se faz sexo.

“É importante ver se existe perda de controle sobre esse comportamento e prejuízo em áreas importantes da vida”, diz o psiquiatra Marco Scanavino, coordenador do AISEP (Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e de Prevenção aos Desfechos Negativos), do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).

A questão chave, segundo os especialistas, é analisar se a atividade sexual está causando sofrimento e danos ao indivíduo. “Muitas pessoas com o transtorno gastam com prostituição, motel e casas de swing de uma forma exagerada, causando prejuízos financeiros”, exemplifica Maria Luiza Sant’Ana do Amaral, psicóloga especializada em sexualidade humana pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP).

Também podem ter perda de oportunidades profissionais. “Deixam passar uma entrevista de trabalho porque estavam ocupadas fazendo sexo, por exemplo. A hora passou e ela nem viu”, acrescenta Amaral.

Outro sinal de alerta é o hábito de faltar à aula ou deixar de ir em eventos sociais para ficar em casa assistindo a vídeos pornográficos. “A pessoa começa a se afastar dos amigos e da família para ter mais oportunidades de encontros com parcerias sexuais ou para se masturbar”, diz Scanavino.

3. Você se sente mal consigo mesmo após a atividade sexual?

Em 1991, o psiquiatra Patrick Carnes, conhecido por ter popularizado o termo “vício em sexo”, descreveu o que ele batizou de “ciclo do dependente de sexo”. Baltieri, do ABSex, diz que observa o ciclo em quase todos os pacientes que atende no ambulatório.

Na primeira fase, a pessoa tem pensamentos eróticos. Depois, entra numa espécie de transe, uma fase de alta excitação e o momento em que, nos homens, por exemplo, surge a ereção.

A terceira fase é a ritualização. Ela tenta, das mesmas formas ou de formas parecidas, chegar até o local onde aprendeu a fazer sexo ou a consumir pornografia, do jeito menos perceptível possível.

Por fim, o ato sexual é consumado, com outra pessoa ou a partir da masturbação. E é aí que entra uma característica importante para o diagnóstico do transtorno: quando o indivíduo ejacula, ele se sente muito mal com o comportamento sexual que teve.

“Isso é quase um denominador comum. Homens com transtorno do comportamento sexual compulsivo, uma vez que ejacularam, passam por uma perda abrupta daquele desejo fissurado e têm uma sensação de sujeira, de degradação, algo como ‘mais uma vez eu não consegui me controlar, sou uma porcaria'”, diz o médico.

A recuperação desse período refratário pode acontecer um ou dois dias depois do ato, mas às vezes após minutos, dependendo da pessoa.

Aliás, segundo Baltieri, o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas também é um traço muito comum entre pessoas acometidas pelo transtorno, que frequentemente utilizam essas substâncias após a atividade sexual como uma válvula de escape, com o objetivo de fugir das sensações ruins. “É um comportamento muito perigoso.”

A CID-11 pondera que, se a angústia estiver relacionada a julgamentos morais ou religiosos sobre impulsos ou comportamentos sexuais, o quadro não é suficiente para que alguém seja diagnosticado com o distúrbio.

4. Percebe que, para obter o prazer sexual, precisa cada vez mais de sexo?

Se não for tratado, o comportamento sexual repetitivo pode escalonar rapidamente, situação semelhante àquela que ocorre com dependentes químicos. Se hoje a pessoa se masturba um determinado número de vezes por dia, por exemplo, é provável que daqui a algumas semanas ela precise triplicar essa frequência para satisfazer seus impulsos sexuais.

“Já vi mulheres que chegaram a usar agulhas para cutucar o próprio clitóris [parte mais sensível da vagina] para, ao mesmo tempo, sentirem prazer e dor”, conta Baltieri.

Segundo o psiquiatra, as vias cerebrais neurais associadas à dependência de sexo e àquelas ligadas ao consumo de cocaína, por exemplo, são bastante similares.

5. Já tentou diminuir a prática sexual e não conseguiu?

Segundo a CID-11, outro sinal de alerta para o diagnóstico do transtorno do comportamento sexual compulsivo é quando o indivíduo já fez várias tentativas para controlar ou reduzir significativamente seu comportamento sexual repetitivo, mas não conseguiu.

Esse padrão de falha de controle deve ter uma manifestação de seis meses ou mais, de acordo com a OMS. Além disso, o indivíduo não pode ter sido diagnosticado com base em um episódio maníaco, nem devem ser utilizadas como parâmetro situações em que ele estava sob ação de uma substância ou medicamento.

O transtorno também não deve ser diagnosticado com base apenas em períodos relativamente breves de aumento dos impulsos e comportamentos sexuais, especialmente durante transições para contextos que envolvem maior disponibilidade de encontros sexuais que anteriormente não existiam (como a mudança para uma nova cidade ou uma alteração no status de relacionamento, por exemplo).

Para a psiquiatra Catarina de Moares, preceptora voluntária da residência de psiquiatra do HC-UFPE (Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco), é igualmente importante analisar se o comportamento sexual repetitivo está, de alguma forma, atrelado a outros distúrbios psiquiátricos no indivíduo.

“Pessoas com transtorno do comportamento sexual compulsivo frequentemente se envolvem em comportamento sexual como resposta a quadros de ansiedade e transtorno bipolar, por exemplo”, diz a médica, que estuda sexualidade humana.

Segundo a OMS, sentimentos de tristeza, ansiedade, tédio, solidão ou outros estados afetivos negativos podem desencadear comportamentos sexuais desordenados.

6. Envolve-se em práticas sexuais de risco, por vezes sem perceber?

Pessoas com transtorno do comportamento sexual compulsivo frequentemente se engajam em práticas sexuais de risco. “Devido ao desejo incontrolável, elas podem fazer sexo com pessoas desconhecidas e negligenciarem o preservativo, por exemplo”, afirma a psicóloga Maria Luiza Sant’Ana do Amaral.

“É comum que pratiquem atividades sexuais em via pública ou em local público”, acrescenta o psiquiatra Marco Scanavino.

7. Mesmo sabendo que pode causar sofrimento para si e para os outros, tem dificuldade em superar o comportamento?

São muitos os prejuízos causados pelo transtorno do comportamento sexual compulsivo. Eles podem ser tanto individuais quanto coletivos, incluindo conflitos conjugais e consequências financeiras ou legais, além de gerar quadros de angústia. Essas pessoas também têm maior risco de contrair IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e de ter ferimentos graves nas regiões genitais.

Contudo, afirma a OMS, o indivíduo continua a se envolver em comportamento sexual repetitivo apesar das consequências adversas e mesmo quando obtém pouca ou nenhuma satisfação com isso.

Onde buscar ajuda

Tanto o ABSex, da Faculdade de Medicina do ABC, quanto o AISEP, da Faculdade de Medicina da USP, oferecem atendimento gratuito. O primeiro está localizado no município de Santo André (SP), enquanto o segundo está na cidade de São Paulo.

Também é possível frequentar reuniões do grupo de ajuda mútua D.A.S.A. (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos).

 

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